
O XADREZ DE DONALD TRUMP
Marcelo de Oliveira Passos*
Quem joga xadrez, ou o menos conhece o valor das peças, tem noção de que a rainha é a peça mais forte do tabuleiro e que as torres ficam, sobretudo em finais de jogos, em segunda posição como peça mais valiosa. Em terceira, os bispos e cavalos, mais úteis em início e meio dos jogos. Em último, os peões.
A metáfora para compreender o que está em jogo: no tabuleiro de Trump, o alvo é a rainha China e não o Brasil. Possuímos um papel terciário, tal qual um bispo, no xadrez econômico e geopolítico global, comandado pelo presidente dos EUA.
As tarifas de 50% que Trump impôs aos produtos brasileiros não estão relacionadas com a defesa dos dois peões da família Bolsonaro (o pai e o filho). Trump quer minar o bispo-Brasil para enfraquecer a rainha-China. Deseja evitar uma aproximação maior entre ambos os países, pois sabe que são duas economias economicamente mais complementares (apesar da distância entre elas) do que as de EUA e Brasil.
Nosso país possui um papel econômico estratégico nessa disputa comercial (como o é o de um bispo no xadrez). Trump sabe que precisa distanciar o quanto possível Brasília de Pequim. Mas faz isto de forma impulsiva, sem a menor persuasão ou diplomacia. Pode colher até o efeito contrário, nesta postura errática e arrogante.
Não é de hoje. Voltando ao seu primeiro mandato: tentou bloquear as negociações do Brasil com a Huawei, alegando “segurança nacional”. Não deu certo e ele só nos poupou porque, à época, o presidente era Bolsonaro e Paulo Guedes soube coordenar bem o processo de negociação com a empresa chinesa.
A Huawei atua fortemente na nossa infraestrutura 5G, juntamente com a sueca Ericsson. A empresa chinesa também está se programando para o 5G Advanced, a próxima evolução do 5G. Planeja lançar a tecnologia 5.5G no Brasil. Isto incomoda Trump e seus nacionalistas republicanos.
Agora, o presidente norte-americano, ao formular seu “mix” de motivos para pressionar o Brasil, incluiu os dois peões Bolsonaro. Para ele, ambos são peças fracas. Todavia, peões podem muito eficazes, dado que são hostis à China e completamente subservientes aos interesses do seu país.
As decisões do STF contrárias aos interesses das Big Techs e da própria rede social de Trump (a Truth Social), foram interpretadas como ataques diretos. O mesmo pode ser dito em relação à ideia de uma moeda diferente do dólar para trocas de países do Brics. Juntando isso com o impulsivo e personalista caráter de Trump, daí para a chantagem explícita foi um passo: “Deixem meus peões livres, afastem-se da rainha China ou o bispo Brasil ficará ameaçado”.
Cabe agora, ao Brasil, fazer uma resistência inteligente. Poderia começar colocando à mesa quatro condições:
- não interferência nas questões internas da Justiça e da política brasileiras, inclusive devolvendo o acesso de nossos ministros do Supremo aos EUA (ok, difícil obter isto, mas também devemos saber endurecer o jogo e mostrar nosso descontentamento);
- queremos negociar também as terras raras e as compras norte-americanas são bem-vindas. Mas as empresas dos Estados Unidos terão acesso a estes minerais se e somente se a condição (1) for integralmente cumprida. Ao primeiro sinal de descumprimento dela, suspenderemos os contratos com empresas norte-americanas e daremos preferência à China e UE, que também são demandantes destes minérios;
- a condição (2) não implica em exclusividade de contratos com os EUA, os minerais são nossos, os negociamos com quem nós quisermos. E quem explorará estes minerais serão nossas empresas. Já possuímos know-how, uma das maiores mineradoras do mundo (a Vale) e outras que poderão contar com capital norte-americano (algumas já contam). Mas a exploração só será feita por empresas de estrutura de capital predominantemente nacional. É pegar ou ficar sem terras raras, pois certamente a China (que possui as maiores reservas do metal) não estará tão disposta a vender para vocês. Viram como estamos em uma posição mais confortável do que vocês imaginaram?
- em relação aos demais setores afetados pelas tarifas, estamos abertos às negociações multissetoriais. Mas esperamos uma redução, analisando setor a setor, e compreendemos o interesse dos EUA, assim como esperamos que compreendam os nossos.
Trump, quando encontra disposição pacífica, porém resistente da parte contrária, costuma ceder. Mas ele só cede desde que sua fama de grande negociador não seja afetada. É preciso também negociar uma saída honrosa para ele e para Lula, na hipótese (já um tanto remota, infelizmente) de as negociações serem bem-sucedidas.
Portanto, caberia, como ato final da negociação, tentar uma conversa pessoal gravada em vídeo ( ou por telefone) com Lula. Obviamente, isto não será fácil. Mas creio que isto depende muito mais da disposição de Lula do que de Trump. O presidente norte-americano já negociou com outros estadistas de esquerda, como a presidente do México e o primeiro-ministro do Canadá. Fez acordo até com King Jon-Un, o ditador da Coreia do Norte, em seu primeiro mandato.
Agora, nesse xadrez, sinceramente não creio que esta estratégia negocial que sugeri irá se concretizar. Meus únicos fios de esperança são Geraldo Alckmin e o chanceler Mauro Vieira. São os dois únicos adultos na sala de negociações, pelo lado do Brasil. Lula está mais preocupado no momento no papel de candidato e em garantir um margem confortável para disputar seu quarto mandato. Não sai do palanque. Voltou a ocupar, com a retórica oca e populista de praxe, longos minutos no Jornal Nacional. Está felizão com isto, ao contrário dos empresários afetados pelo tarifaço.
*Marcelo de Oliveira Passos – Professor e pesquisador do Mestrado e Doutorado em Economia Aplicada da UFPEL.











