ARTIGO – O OVO DA SERPENTE

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O Ovo da Serpente

Pedro E. Almeida da Silva*

Os ovos de algumas serpentes apresentam translucidez nos estágios iniciais, permitindo visibilidade parcial do interior; no entanto, sua opacidade aumenta com o avanço do desenvolvimento, ocultando a cobra incubada. A referência metafórica deste texto vem do filme O Ovo da Serpente (1977), de Ingmar Bergman, que retratava o surgimento do nazismo chocando-se nas entranhas frágeis da República de Weimar. No cenário geopolítico atual, infiltra-se igualmente uma ameaça silenciosa, capaz de adquirir proporções catastróficas.

Em um mundo marcado por autoritarismo ascendente, guerras econômicas, alianças que se fragmentam pelo desrespeito a acordos internacionais e limpezas étnicas, como a que ocorre na Palestina, cresce um perigo frequentemente subestimado: o risco de uma crise global capaz de desencadear o impensável.

Eis o paradoxo venenoso: o ressurgimento autoritário, alimentado por discursos e promessas de eficiência, propaga-se como solução, oferecendo ordem, mas entregando instabilidade e exclusão; prometendo transparência, mas envolto na opacidade da repressão. Tal como o ovo que, à medida que se fecha à luz, esconde a serpente pronta para o bote, o autoritarismo se disfarça de estabilidade enquanto fermenta o caos.

Regimes centralizadores, ao adotarem posturas agressivas e expansionistas, elevam exponencialmente o risco de conflito, seja por ambição territorial, rivalidade ideológica ou medo de perder poder geopolítico. Nesse contexto, as guerras econômicas transformaram-se na arma preferencial das disputas contemporâneas.

Sanções estranguladoras, tarifas punitivas e bloqueios comerciais disfarçados de política econômica constituem ataques indiretos, mas com consequências diretas e devastadoras, corroendo economias, bem-estar dos povos e soberania dos países. Eis onde a metáfora ganha sua força aterradora: assim como o ovo da serpente parece inofensivo, essas tensões aparentemente isoladas ou administráveis carregam, em seu núcleo, o embrião de um conflito global.

A fenda no ovo pode ser uma crise local mal resolvida, um incidente militar provocado por erro de cálculo, o colapso de uma aliança ou a violação das regras civilizatórias do comércio internacional. Se as ações imprudentes e as retóricas inflamadas que hoje minam a ordem global não forem urgentemente contidas e revertidas, o ovo poderá se romper. E, da casca quebrada, poderá emergir não uma serpente solitária, mas o dragão da guerra em escala planetária.

A história é um testemunho eloquente: conflitos globais frequentemente eclodem a partir de crises que pareciam de administráveis, mas que escaparam ao controle pela complacência ou pela escalada da violência. Por isso, fortalecer instituições multilaterais, promover incansavelmente os valores democráticos e os direitos humanos, e buscar soluções diplomáticas e cooperativas para disputas, inclusive as econômicas, não são meros ideais, mas imperativos de sobrevivência. São os antídotos para a serpente. Quem sabe, ao reconhecer o risco, seja possível evitar o pior. Antes que o ovo se rompa.

*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG