ARTIGO – NIEMEYER: TRAÇO QUE SE ETERNIZA

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NIEMEYER: TRAÇO QUE SE ETERNIZA

Clayton Rocha

Tudo passa. Somente a arte poderosa é eterna. Toda vez que nasce uma obra-prima – e a Catedral de Brasília é uma obra-prima – faz-se uma distribuição de Deus. A obra-prima é uma espécie de milagre, que se materializa numa vertigem de criatividade.

Oscar Niemeyer, na serenidade de seus 98 anos, parece aceitar a solução de Einstein e Spinoza: apenas inclinar a cabeça e bater no chapéu para as leis e os mistérios da natureza, mas tratar de viver. O criador artístico de Brasília é dotado de tamanha energia espiritual que suas ações diárias põem por terra aquela sensação negativa conhecida pelo nome de paralisia da vontade, e que a tantas abate. Contrariando este tipo de comportamento, Oscar Niemeyer olha corajosamente para a frente, participando dos sonhos do mundo, e interagindo em sua paisagem através de seu traço universalizado. Amável numa conversa matinal, ele abre generoso crédito para as questões da boa amizade. Abraçado sentimentalmente ao Rio Grande, tendo nas mãos um velho e centenário rebenque trançado, invoca quatro pilares de sustentação da principal de todas as obras, que é a da construção de relações afetivas e carregadas de conteúdo, no padrão de seus inesquecíveis Luis Carlos Prestes, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e João Saldanha. E inspirado em amizades de uma vida, reafirma uma convicção, segundo qual foram os gaúchos que verdadeiramente defenderam Brasil em históricas guerras e em épicos combates. Talvez por isso tenha prometido à Universidade Federal de Pelotas, além do projeto de um teatro no Campus Porto às margens do Canal Gonçalo, a escultura de quero-quero, pássaro cuja leveza imponente é marca viva do pampa, e por isso mesmo identificado como o seu “Sentinela”.

Ao vê-lo desenhando em prancheta, que se faça um brinde silencioso à vontade que o impele. Pois todo aquele que passar os olhos pela imensidão de sua obra perceberá que, se uma gota caindo constantemente chega a furar uma rocha, seus traços milimétricos e estudados também servem para identificar uma cidade símbolo feita aos poucos, saída não só do sonho de Dom Bosco, mas da audácia e da persistência de seus idealizadores.

Sobrevoando Brasília, a cidade que tem o formato de um avião, com suas asas abertas pousadas na imensidão do cerrado, tem-se a certeza de que, na conhecida expressão de Napoleão Bonaparte, a imaginação – e apenas a imaginação! – governa o gênero humano. E de acordo com esta regra, e olhando do alto a cidade de Niemeyer, percebe-se que sua obra não passa de uma bendita vertigem de criatividade. E se alguém quiser mais, tendo a disposição de se deter numa obra-prima, consciente de que somente a arte poderosa é eterna, bastará olhar para a Catedral de Brasília, através da qual faz-se uma distribuição de Deus, pois uma obra-prima é uma espécie de milagre. Por tais razões, parece-me que este símbolo vivo da arquitetura modernista brasileira merece ser enquadrado naqueles belos versos de Gonçalves Dias, quando ele diz que a vida é luta renhida; Viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate; que os fortes, os bravos, só pode exaltar. Tão grande e tão simples. Esse é o jeito Niemeyer de ser.

Eu o vejo assim, diante daquela prancheta, posta lá no alto de uma cobertura. Lá daquela folha branca riscada, e por isso mesmo consagrada, de onde emana bem mais do que traço e criatividade, genialidade e vontade. Talvez porque saia dali aquilo que é um impulso a mais, que nos alcança, a mostrar-nos que o coração de um gênio nunca envelhece. Bastando um sorriso, um pedido, um gesto, um nada, um alvoroço, para que tudo nele se ilumine e aqueça. E se o mais raro é uma abnegação constante, este jeito Oscar Niemeyer de ser – em pleno vigor criativo – merece o prêmio de uma frase justiceira: Já é chegada a hora de dizermos a ele que jamais se sobe tão alto como quando, sabendo até onde se sobe, não se perde a perspectiva de uma existência voltada para a prática da simplicidade, da verdade, da arte e da justiça social.

As obras de Oscar Niemeyer

O seu traço pode visto hoje, entre outras obras, na Pampulha, em Belo Horizonte; no Conjunto Ibirapuera, em São Paulo; na nova Capital da República, no Aeroporto Brasília, nos CIEPS, na Passarela do Samba do Rio de Janeiro, no Memorial da América Latina, em São Paulo; Museu de Arte Moderna de Brasília, no Rio-Centro, no Teatro do Ibirapuera, em São Paulo; no Centro Cultural Esportivo João Saldanha em Maricá, Rio de Janeiro; na sede UNE, no Flamengo; na sede da OAB, em Brasília; no Museu do Cinema, em Niterói; no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba; no Auditório Ibirapuera, em São Paulo; no Museu de Arte Moderna em Caracas, na Venezuela; na sede do Partido Comunista Francês, em Paris; na Editora Mondadori, em Milão; na Mesquita de Argel, na Argélia; na Universidade de Constantine, na Argélia; no Centro Cultural de Lê Havre, na França, na sede da Humanité, na França; na Universidade de Haifa; na Serpentine Gallery de Londres; no Deserto de Neguev, Israel; na Ilha de Abu-Dhabi, nos Emirados Árabes; no Teatro de Cuba, em Havana; no Monumento à Paz, na sede da ONU em Nova Iorque; no Centro Cultural Príncipe de Astúrias, na Espanha; no Monumento a JK, em Brasília; e no Memorial Leonel Brizola, do Rio Janeiro.