ARTIGO – GHIGGIA CHEGOU!

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GHIGGIA CHEGOU!

Por Paulo Gastal Neto*

Coluna escrita em 24.12.2006

E os uruguaios não estão por aqui? “Suerte…!”

Eu estava lá…Na noite de 30 de março de 2005 o Estádio Centenário de Montevidéu já estava cheio, repleto quase, para mais aquele Uruguai x Brasil, desta vez pela Fase de Eliminatórias à Copa da Alemanha 2006 e um homem “roubaria” o espaço de Ronaldo, seria mais cotejado do que Kaká e mais aplaudido do que Ronaldinho Gaúcho. Alcides Edgardo Ghiggia Pereyra.

Gravei uma rápida entrevista com o conterrâneo Emerson entre o ônibus da Seleção Brasileira e a porta do vestiário e corri para o meu posto para “passar” a entrevista para a Rádio Universidade. Emerson inclusive viria a marcar o gol de empate naquele jogo histórico, como são todos envolvendo esses dois países e que terminaria em 1 a 1.  No trajeto entre a ante-sala do vestiário destinado ao Brasil e as cabines de imprensa existe um grande vão cheio de painéis e placas em bronze que relembram “passos” históricos do futebol uruguaio. Este “hall” estava cheio de jornalistas, radialistas e o burburinho era grande. De repente um silêncio absoluto toma conta daquele espaço destinado à imprensa de todo o mundo que se fazia presente: Estava chegando o magistral, o herói, a lenda viva, o endeusado Alcides Edgardo Ghiggia, “El verdugo do Maracanã”.

Os torcedores uruguaios lhe rendem então uma espécie de reverência durante o trajeto entre a porta principal destinada a entrada da imprensa e a tribuna perpétua que leva o seu nome no estádio. Ghiggia não apresenta credenciais, nem sequer tem um ingresso na mão! Ninguém ousa pedir-lhe identificação! Quando chega ao balcão, de onde se visualiza o gramado, Ghiggia contempla a multidão e acena para o público que o aplaude de pé num sinal de absoluto respeito. Uma bandeira enorme é desfraldada nas tribunas – como chamam os uruguaios a arquibancada – do lado oposto com um dizer emblemático: Gracias por 1950. Eles chamam aquele “golpe” de “Maracanazo”!

Os uruguaios nunca esquecerão 1950. São devotos daquele momento e deste “santo” do futebol que está personificado em Ghiggia. O futebol do Uruguai vive e se alimenta com dignidade sóbria do Maracanã e este fato o credenciou para sempre para estar entre as grandes seleções de futebol do mundo. Quando Gigghia passou a poucos metros de onde eu estava, não sabia se estendia o gravador para “pegar” um suspiro daquele símbolo histórico do futebol mundial ou se apenas assistia aquela cena comovente. Gravei, como tantos a minha volta, sem nada perguntar. Ele dedicou um respeito superior, para com todos que se envolvem com o futebol, ao Brasil, mas sobretudo agradeceu ao seu povo pelo carinho e pelo eterno e imorredouro reconhecimento. Fez referência, claro, as dificuldades daquele jogo, comentou sobre uma possível ida do Uruguai à Alemanha e óbvio, falou do momento mágico que provoca um sorriso de satisfação em cada repórter uruguaio: O momento do seu gol no Maracanã.

Estava eu ali e ao meu lado o “carrasco” do Maracanã de 50, o homem que calou uma nação, o jogador que fez chorar o maior estádio do mundo com duzentas mil pessoas. E eu estava ali, frente a frente, tocando-o, “mirando-o” e absolutamente não nutria nenhum sentimento que não fosse também o de admiração e respeito. Apenas fiquei observando-o. Logo ele se foi e segui atrás, ao lado dos inúmeros repórteres que o cotejavam compartilhando da mesma aura do “mito”. Quem vive o futebol percebe logo que aquele era um momento raro que só quem o vive e quem vai a estádios muitas e muitas vezes, quem abandona o conforto da poltrona, quem passa horas dentro de um ônibus ou amarga eternas esperas em aeroportos. Quem vive futebol percebe que aquele era um momento para se aproveitar ao máximo. Ali estava um ícone do meu esporte preferido. Um divisor de uma época, um marco humano na história da bola. Fiquei observando os gestos e Gigghia. Foi, entre tantas, uma noite memorável de futebol. Gigghia, quando chegou, percebi, o Centenário lotou! Gigghia morreu em Montevidéu no dia 16 de julho de 2015.

*Radialista e editor do site www.pelotas13horas.com.br