ARTIGO – GENTE QUE A GENTE NÃO VÊ

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Gente que a gente não vê

Prof. Pedro Eduardo Almeida da Silva*

Na tarde de 24 de março de 1882, em uma sessão científica da Sociedade de Fisiologia Alemã, o jovem microbiologista alemão Robert Koch anunciou que a etiologia da doença era bacteriana. Com evidências científicas robustas, demonstrou-se que o Mycobacterium tuberculosis era o agente causador da “peste branca”, enfermidade que ceifava milhares de vidas desde tempos remotos.

Com a causa conhecida, tornou-se imperativo não apenas aperfeiçoar o diagnóstico, mas, sobretudo, desenvolver uma vacina e um tratamento eficaz. Ao contrário do que ocorreu com a maioria das doenças infecciosas, em que o tratamento precedeu a vacina, a BCG foi desenvolvida em 1921 pelos microbiologistas franceses Albert Calmette e Camille Guérin, após 13 anos de estudos dedicados à atenuação do Mycobacterium bovis, uma espécie intimamente relacionada ao M. tuberculosis. Embora apresente eficácia limitada na prevenção da doença pulmonar em adultos, a BCG mostrou-se essencial na prevenção das formas graves em crianças e, por essa razão, permanece sendo utilizada em países com alta carga de tuberculose, como o Brasil.

Na década de 1940, durante o chamado período de ouro da descoberta dos antimicrobianos, o ucraniano Selman Waksman isolou a estreptomicina a partir de microrganismos do solo. Rapidamente convertida em medicamento, ela inaugurou o tratamento eficaz da tuberculose. Nas três décadas seguintes, outros antimicrobianos foram incorporados ao esquema terapêutico, culminando na combinação atual de quatro fármacos, capaz de curar cerca de 95% dos casos quando corretamente utilizada.

Apesar de dispormos hoje de métodos diagnósticos rápidos e acurados, capazes de detectar a maioria dos casos em poucas horas, e de tratamento altamente eficaz, a tuberculose ainda causa cerca de 10,7 milhões de novos casos e 1,23 milhão de mortes por ano no mundo. O que falta? Evidentemente, novas vacinas, algumas em desenvolvimento há mais de duas décadas e com expectativa de disponibilidade nos próximos anos, poderão reduzir de forma significativa a incidência e a mortalidade. No entanto, a tuberculose é, antes de tudo, uma doença de determinação social.

A grande maioria dos casos concentra-se em populações em situação de vulnerabilidade, frequentemente invisibilizadas.

A persistência da tuberculose não decorre de insuficiência do conhecimento científico, mas da forma como a sociedade organiza suas prioridades. Ainda que existam políticas públicas de transferência de renda e apoio social que aliviam parcialmente as condições mais extremas de vulnerabilidade, elas não enfrentam o núcleo do problema. Sem acesso contínuo a alimentação adequada, moradia digna, saneamento básico e condições reais de vida, não há prevenção efetiva nem sucesso terapêutico sustentado. A biologia responde diretamente ao ambiente social. Em um modelo que privilegia a lógica do mercado em detrimento do ser humano, direitos fundamentais tornam-se condicionais. Nesse cenário, a tuberculose se impõe como expressão concreta da desigualdade. Avançamos em ciência, dispomos de diagnóstico rápido e tratamento eficaz, mas seguimos falhando no essencial. No fim, a tuberculose persiste porque seguimos aceitando uma sociedade que naturaliza a existência de gente que a gente não vê.

*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG