ARTIGO – CHICO BUARQUE VÍTIMA DO FASCISMO

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CHICO BUARQUE VÍTIMA DO FASCISMO

Paulo Gastal Neto*

Chegou a vez de Chico Buarque, ícone da Música Brasileira, ser vítima do fascismo, dos exageros pseudos-políticamente corretos, dos exacerbados movimentos ‘burros’ – como escrevi recentemente – que vivemos no país. Ele teve a música “Com açúcar, com Afeto” censurada!

Chegou a hora de Chico sentir na pele o preconceito e – assim como no período da ditadura – de assistir a sua obra ser proibida. É o fascismo sendo protagonizado contra a veia criativa e cultural de Chico Buarque, um gigante dos movimentos nacionais em favor das liberdades. Chico então anunciou que não vai mais cantar uma de suas músicas mais conhecidas.

Ele compôs “Com açúcar, com Afeto” em homenagem e a pedido da sua amiga Nara Leão, outro nome de ponta da nossa música, que fez a solicitação pessoalmente ao próprio Chico lá atrás no tempo, dizendo querer “uma música de mulher sofredora”. Nara inclusive passou à Chico exemplos de canções, sambas das antigas, onde os maridos saíam para a gandaia e as mulheres ficavam em casa sofrendo, tipo ‘Ai Que Saudade da Amélia’. Coisas de outros tempos, músicas de um momento cultural diferente, mas que existiu e que segundo alguns grupos, deveriam ser apagadas da história. Mas não serão!

Esses são os momentos ambíguos que vivemos. Já houve tempos semelhantes. No período do Nazismo, na Alemanha de Hitler, não queimavam livros ‘supostamente inconvenientes ao regime’ em praças? Guardadas as proporções, Chico está sendo uma vítima desta prática nojenta e preconceituosa, lhe imposta em pleno 2022.

Mas para não entrar em confrontos menores, rasteiros, Chico Buarque, contemporizou e do alto do seu altruísmo e da sua intelectualidade, amenizou: as feministas têm razão, eu vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia… Não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não podia ser tratada assim. Vou deixar de cantar e a música sairá do repertório de shows. 

A letra de “Com Açúcar, com Afeto” retrata uma mulher que fica em casa enquanto o marido, que a sustenta, vive na rua entre bares, saias e praias, bebendo e discutindo futebol. A crítica ao teor machista da composição se dá em relação à condição de subalterna da mulher, que no fim do dia “esquenta o prato” e “abre os braços” para o marido. Só que na verdade essa era uma cultura que estava dentro do ambiente brasileiro daquela época, que existiu e que não será apagada com a proibição do ‘cantar da música ‘a’ ou ‘b’.

Os movimentos sociológicos e culturais estão gravados, estão nas mentes, nos livros, no cinema, nos antepassados e eles não somem com as proibições, com as supressões com as raivas individuais momentâneas. Eles vão permanecer eternamente, pois sempre haverá alguém para contar para alguém que conta para outrem e este escreve, registra os fatos e todos ficam sabendo como eram os ambientes e as culturas do meio doméstico brasileiro, nesse caso específico.

O mesmo vale para a escravidão: por mais que criemos mecanismos que possam compensar social e moralmente aquela atrocidade vivida por negros e índios, em grande parte do mundo, elas permanecerão na história, pois é impossível apagá-las. Mas temos sim que criar esses mecanismos, amenizar sentimentos raivosos, aproximarmos uns dos outros como povo que quer transformar-se culturalmente sem expressões também autoritárias e preconceituosas de núcleos.

Deveremos agir todos de maneira respeitosa e compreensiva com todos. E essa máxima vale também para aqueles que por ventura se entendem como superiores nas suas avaliações de interesse segmentado. Segue o preconceito, só que agora ele é oriundo de outra vertente.

*Radialista e editor do site www.pelotas13horas.com.br