ARTIGO – BILHETE AO PABLO RODRIGUES

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BILHETE AO PABLO RODRIGUES
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Clayton Rocha
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Sobre aquele mendigo de Roma, na eleição de Francisco. Oito anos depois, até vale a pergunta: – Terá sido um sinal de São Francisco de Assis?
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Aquele teu texto sobre o Sérgio Cabral, na despedida dele, é uma pérola guardada em minha memória e que já foi revisitada inúmeras vezes, relida, avaliada, além de ter sido incluída em todos os espaços possíveis desta saudade que veio para ficar em definitivo em nossas vidas. Pablo, eu não consigo parar de ler aquele teu texto… Aquele mendigo romano naquele entardecer gelado, abraçando pedaços de papelão embaixo de uma grande marquise junto à praça de Pedro e implicando conosco: Saiam daqui, porque esse é o meu lugar! Outro é o lugar de vocês, bem longe dos espaços do meu recolhimento.
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Qual era o recado daquele mendigo horas antes da eleição de um papa, pergunto-me até hoje. Era um sinal de São Francisco de Assis? Estávamos sendo testados numa das noites históricas e emblemáticas da história das nossas vidas? Quem era aquele mendigo romano anônimo recém saído das sombras diante de nós naquela noite de luzes e de fumaça branca?
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Pois mostra-nos – na encantadora poesia do teu texto – o significado daquele mendigo de oito anos atrás. Éramos quatro naquele entardecer romano gelado do dia 13 de 03 de (20)13. Hoje somos dois, porque aquele mendigo ficou em Roma enquanto o Cabral fez um surpreendente e inesperado voo livre em direção à porta do grande mistério. Penso nele em momentos inúmeros, nesse Cabral do nosso dia a dia, sempre criando eventos e projetando coberturas, e que tanto sonhava em transmitir a eleição de um papa. Pois pede a ele – agora – que não pare de caminhar nesta estrada infindável dos espaços eternos, preservando a convicção de que os caminhos se cruzam e que ainda será possível experimentar a emoção do bom convívio , desta vez em endereços outros, correndo por conta de gargalhadas e de lágrimas.
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Pablo: Os anos aproximam-se silenciosamente!
Cabral: Tudo em nós é mortal, menos os bens do espírito e da inteligência.
Prossigamos, pois, em qualquer que seja o endereço que nos acolhe, seja ele terreno ou espiritual. (CR)