ARTIGO – ARRUMAR OS “ESTÁBULOS”

300

ARRUMAR OS “ESTÁBULOS”

Dom Jacinto Bergmann*

Estive pensando no Natal-2020 totalmente diferente… a pandemia covídica está nos forçando a esse Natal-2020 diferente. A diferença está no fato da pandemia ter-nos levado para menos exterioridades e mais interioridade; para menos aparências e mais aconchego; para menos formalidades e mais sinceridade; para menos festividades e mais celebração; para menos motivações secundárias e mais motivo principal; para menos “mansões” e mais “estábulos”.

Em tantos anos passados, já experimentamos acentuadamente a criatividade do “menos “; é hora de sermos criativos do “mais”. A propósito: o Papa Francisco, motivado pela pandemia, no início do mês de dezembro, dia 8, Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, presenteou-nos com a Carta Apostólica Patris Corde, refletindo sobre a pessoa de José, o carpinteiro de Nazaré, esposo de Maria e pai adotivo de Jesus. Nela, Papa Francisco, apresenta, com unção e mística profundas, várias facetas da pessoa de José. Entre elas, a faceta de “José como pai de coragem criativa”, e afirma textualmente: “Deus intervém na humanidade por meio de acontecimentos e pessoas: José é o homem por meio de quem Deus cuida dos primórdios da redenção; é o verdadeiro ‘milagre’ pelo qual salva o Menino e sua mãe.

O céu intervém, confiando na coragem criativa deste homem que, tendo chegado a Belém e não encontrando alojamento onde Maria possa dar à luz, arranja um estábulo e prepara-o de modo a tornar-se o lugar mais acolhedor possível para o Filho de Deus, que vem ao mundo” (PC, ponto 5). Seguindo a lógica do Papa, José, como “pai de coragem criativa”, soube apostar no “mais” da interioridade, do aconchego, da sinceridade, da celebração, do motivo central e do “estábulo”. Soube arrumar o “estábulo”, porque aí o Deus-Menino quis nascer. A pandemia nos levou para os “estábulos” da vida pessoal, mas também familiar, comunitária e social.

Onde ficaram as exterioridades que deram lugar a interioridade?; onde ficaram as aparências que deram lugar ao aconchego?; onde ficaram as formalidades para dar lugar à
sinceridade?; onde ficaram as festividades que deram lugar à celebração?; onde ficaram as
motivações secundárias que deram lugar ao motivo principal?; onde ficaram as “mansões” e estão dando lugar aos “estábulos”?

É hora de nos inspirarmos em José de Nazaré, esse “pai de coragem criativa”, e com criatividade arrumar os nossos “estábulos” para os quais a pandemia nos levou. É nesses nossos “estábulos” que o Deus-Menino quer nascer neste pandêmico Natal-2020. Ele não quer e não vai nascer nas exterioridades, nas aparências, nas formalidades, nas festividades, nas motivações secundárias e nas “mansões”. Essas são ainda realidades de uma humanidade passada, mas que no presente teve que se curvar diante de uma pandemia. O Natal-2020 diferente será certamente, também e especialmente, um FELIZ NATAL! Basta sermos corajosamente criativos para o “mais” natalino. Basta ARRUMAR OS NOSSOS “ESTÁBULOS”!

*Arcebispo Metropolitano de Pelotas