ARTIGO – A VERDADEIRA HISTÓRIA DO DICIONÁRIO DE PELOTÊS

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A VERDADEIRA HISTÓRIA DO DICIONÁRIO DE PELOTÊS

Lourenço Cazarré

O que se pretende aqui, neste deslumbrante e deslumbrado artigo, é relatar a história do nascimento do mais bem-sucedido dos léxicos lançados, no mundo todo, nos últimos anos. Trata-se, é claro, do famoso, catita e formoso Dicionário de Pelotês, que apareceu encartado em um livro cujo título é A língua de Pelotas e outras barbaridades (Insular, 2018).

O glossário da sofisticadíssima linguagem praticada naquela cultivada povoação – também conhecida como Princesa do Sul ou Atenas Sul-riograndense – é obra de fatura coletiva. Foi alevantada pelo esforço conjunto de meia dúzia de dez ou doze cidadãos nascidos ou vividos naquele município. Entre eles, muitos praticantes daquela sutilíssima arte que Borges definiu como “museu de minúcias insignificantes”, o jornalismo.

Sim, damas e cavalheiros, aquele insólito e divertido monumento lexicográfico – meio de verdade, meio às brincas – foi elaborado por um bando de mancebos, quase todos de uma mesma geração, já bastante rodada. Desses muitos rapazes, um único, um gentleman – embora tenha sido zagueiro sanguinário no sangrento campeonato de futebol da colônia alemã de Pelotas – quis intrometer uma moça na empreitada de qualquer jeito. Homem moderno, antenado para a inserção das minorias, ele virou e mexeu, mas não conseguiu uma só donzela disposta a contribuir com uma só palavrinha. Mulheres, como se sabe, têm ótimo faro para não entrar em canoas perfuradas.

Sigamos com a nossa saga.

Merece o quê?
A ideia da construção desta relevante obra – ainda que satírico-cômica – surgiu das águas turvas, fétidas e malsãs da internet. Tudo começou quando, na véspera do carnaval de 2018, circulou pela rede mundial de fofocas, bobagens e demais idiotices uma singela relação de dez vocábulos que seriam exemplares do pelotês, o brando e dúctil idioma praticado na Atenas Sul-rio-grandense.

Passaremos impávidos por cima do fato de se encontrar, entre essas palavras, o abjetamente obsequioso e desprezível “merece”, termo de surgimento recente e que merece repúdio e desprezo.

O que é esse “merece” e em que condições é empregado? Ele veio substituir o brusco, porém abrangente e certeiro, “Não tem di quê!”.

Além de tudo, esse “merece” é uma canelada na língua utilizada na Princesa do Sul. O pelotense da clara do ovo diria, se a isso fosse forçado por um fórceps: “Mereces”.

Vamos divulgar aqui um fato pouco conhecido pelos aimorés, botocudos e caetés. O pelotense culto utiliza o tu. E, pior que isso, usa-o corretamente. O pelotense diz: tu foste, tu viste, tu fizeste, tu compraste. Os moradores dos arruamentos e corruptelas do Continente de São Pedro (praticantes todos eles do gauchismo, do gauchês e de outras perversões) dizem: tu foi, tu viu, tu fez, tu comprô. Mas há ainda pessoas mais nojentas e asquerosas, que são aquelas que, querendo empregar o tu, resvalam para algo que seria, em tese, uma junção de condicional com a terceira pessoa do plural: tu fosses, tu visses, tu fezess, tu comprasses.

Pois bem, voltemos ao nosso dicionário.

O prêmio perdido
Esse infecto decálogo internético de pelotês foi distribuído entre os bandoleiros e os fora-da-lei que haviam participado da construção do livro 50 tons de rosa – Pelotas no tempo da ditadura.

Outra pausa. Esse título inoportuno, supostamente gracioso e engraçadinho, garantiu ao nosso livro a perda do Prêmio Açorianos para obras de não-ficção lançadas em 2016. Alguém sério premiaria um livro com tal titulação? Obviamente: Não!

Mas sigamos rumo ao norte, embora lavados em lágrimas. Distribuído o decálogo, teve início uma frenética troca de mensagens, por uátisapi, em que se constatou o desejo secreto de todos esses elementos e indivíduos de serem os maiores conhecedores do precioso jargão de Pelotas, cuja riqueza ainda não foi convenientemente reconhecida nesta nossa ágrafa, larápia e inculta nação.

Já no primeiro dia, de modo espontâneo, aleatório e atabalhoado, começou a ser construído o impressionante vocabulário. Foi quando um dos pelintras – conhecido na informalidade como latin lover do Cruzeiro Velho – criou um grupo para a troca de mensagens – zaps – entre os pretensos conhecedores do referido linguajar.

A partir de então, ao longo dos dias, e das noites, com uma palavrinha puxando outra, teve início uma frenética e encarniçada batalha pelo posto de anotador do maior número de pérolas do linguajar pelotense.

Mofas e galhofas
Ao final de cada jornada, o mais alfabetizado dos integrantes do grupo – o que não significa muita coisa em se tratando de tal irmandade – percorria a falaçada gravada no ecrã (um pelotense de escol, obviamente, prefere a palavra francesa, como os portugueses, à insossa “tela”) do seu telefone móvel para colher as preciosidades ali perdidas em meio a mofas, diatribes e galhofas.

Foi exatamente assim, ledoras e leitores, que se ergueu esse colosso lexicológico que certamente terá, no futuro, lugar assegurado nos anais da cultura pátria. Foram recenseadas cerca de 500 palavras e expressões. Essa pequena mostra – que será ampliada em breve, com a publicação do Almanário de Pelotas – já nos fornece um retrato, ainda que pálido, da elevada arte, da instigante cultura e dos bons e maus costumes do município mais elegante e sofisticado do Rio Grande do Sul. O único, na verdade.

Fatalismo geográfico
Como sabem todos os pelotenses ilustrados – que raramente falam disso em público, pois são recatados e gentis –, a Princesa do Sul é uma frágil e delicada metrópole completamente cercada por aldeias incultas e belicosas que formam uma unidade federativa chamada Rio Grande do Sul. Que, por sua vez, carrega nos ombros um pesadelo cognominado Brasil, que – em remota hipótese defendida apenas por otimistas insensatos – seria algo semelhante a uma nação.

Feita essa ressalva geográfica, voltemos ao nosso livro.
Obviamente, nessa grandiosa missão, fomos forçados a arrolar alguns vocábulos que são usados até mesmo pelos desprivilegiados moradores das pequenas e incógnitas comarcas que sitiam Pelotas, praticantes que são desse singelo e simpático linguajar que é o gauchês, o segundo mais importante dos falares do Estado mais meridional do Brasil.

Uma mesa que muito se sacudia
Tiveram papel importante na construção deste vocabulário as reuniões semanais da Ordem dos Velhos Jornalistas Pelotenses Residentes em Brasília (OVJPRB), durante as quais um médium – cuja modéstia nos exigiu anonimato – reencarnou os espíritos dos maiores linguistas do mundo, que foram unânimes em reconhecer a relevância da nossa acurada investigação.

Podemos destacar vários desses renomados estudiosos que vieram até nós – no escurinho de um bar da Asa Norte, cuja mesa muito se sacudia – na forma de impalpáveis ectoplasmas.

Os maiores linguistas do Universo
Comecemos pelo alemão Karl Edward von Beherensdorff, o Príncipe da Pomerânia, também tachado Rei do Salsichão da Madelaine, que nas suas incursões pelo Brasil ganhou um apodo penoso: O Garça.

Não lhe fica atrás em mérito o russo Serguei Narigovitch Sikeiratin, também nomeado o Balaqueiro de São Pelotesburgo, que introduziu o peteleco e o futebol de salão na Crimeia.
Do fog de Londres veio a alma de Joseph Cross, o grande gramático, que, quando no Brasil, ficou conhecido por suas galantes excursões pela periferia de Brasília, onde estudou a fundo o perfumado candanguês falado por mocinhas indefesas.

Menos conhecido como linguista, mas facilmente reconhecido como O Empresário Paulista, compareceu às nossas seções telepáticas, o espírito de porco do estudioso calabrês Luigi Ricciardo Bruschetta, conhecido na Ndrangueta como Gaguinho do Laranjal. Do Caribe, tivemos a visita espiritual do regueiro Ayr Tommy Rye, Grão-vizir da Jamaica, que estudou, quando jovem, em Pelotas, tanto o jogo de bolinha de gude quanto o troca-troca (inocente atividade física infantil masculina que, tendo em vista o decoro, não descreveremos aqui) na Zona do Porto, ocasião em que foi alcunhado Airtão da Barroso.

De muito longe, tanto que chegou cansada, veio a alma límpida e doce do moçambicano M´Jeraldo Racê, que, enquanto estudava o português sul-brasileiro, ganhava uns trocados jogando bola no futebol colonial de São Lourenço ou como manequim do Magazine Mazza.
Por fim, surgiu em uma de nossas sessões, meio a contragosto, o petulante Larry Backhouse, ianque esnobe, que, no Brasil, quando desvendava a língua de charruas e minuanos, recebeu – bem feito! – o apelido de Chinelão da Vila do Sapo.

O fantasma russo e os recortes amarelados
Pausa para um evento que merece, sem dúvida, registro nos compêndios históricos da linguística mundial. Um fato chocante ocorreu durante a sessão em que o nosso médium recebia o espírito do jornalista Serguei Narigovitch Sikeiratin, fuzilado pessoalmente – com muita justiça, diga-se – pelo camarada Stalin.

Como se apresentou o ectoplasma de Narigovitch?
Segurando em suas descarnadas mãos recortes amarelados da coluna “Pelotasviskaia dialetovksy”, que manteve por muitos anos no jornal Diaróvitch Manhêzevisky, de São Pelotesburgo. Guardamos tais recortes para apresentá-los, se necessário, no momento adequado, no foro competente. Houve então muita comoção e choro.

Línguas selvagens
Nesse ponto, é necessário registrar aqui uma afirmação pouco conhecida do viperino e fastidioso Larry Backhouse (pioneiro no registro e na investigação dos dialetos praticados no Rio Grande do Sul) que muito engrandece o falar dos pelotenses. Como se sabe, foi esse pérfido e galhofeiro acadêmico estadunidense quem identificou e codificou os cinco linguajares da nossa mais meridional Província, que são: o extraordinário e esplendoroso pelotês; o onomatopaico magrãolês, gaguejado em Porto Alegre; o tosco carcamaneto, praticado nas grotas e pirambeiras da Região Serrana; o primitivo teutoniquês, usado no eixo São Leopoldo-Novo Hamburgo; e o singelo e engraçadinho gauchês, das zonas não civilizadas do Rio Grande do Sul, onde ainda são praticadas a chula, o chimarrão e o churrasco.

Pois bem, vamos à fabulosa assertiva que Lawrence Backhouse cravou no fecho do seu acurado estudo linguístico: “O mais requintado desses falares é, portanto, sem dúvida, o colossal pelotês, idioma que, no meu nada modesto entender, supera até mesmo – em maviosidade, riqueza, expressividade e esplendor – o grego de Homero e o inglês de Shakespeare!”

Chegamos, pois, ao cume.
Finalmente, depois de muita angústia moral, alcançamos a coragem necessária para afirmar aqui, com todas as letras – nós que somos tão modestos e recatados -, que o idioma dos pelotenses não deixa margem para que nenhum outro linguajar cresça e apareça.

Resumindo: O pelotês é o topo da criatividade lexicográfica humana.

Um reclame do Almanário
Porém, sabendo da redação deste nosso arrazoado literário, telefonou-nos O Empresário Paulista. Jeitoso, manhoso e insidioso, pediu-nos que disséssemos também aqui que estaremos lançando até o final deste ano – se este ano chegar ao fim, claro – a continuação do esgotado Dicionário de Pelotas. Em outras palavras, solicitou-nos insistentemente o proprietário daquela empresa de lavagem de fachadas um reclame: que anunciássemos o lançamento do magnífico, sensacional e imperdível Almanário de Pelotas, que virá estraçalhando com cerca de 70 mil palavras.

Entregando os colaboradores
Ainda mais meloso, implorou-nos O Empresário Paulista que publicássemos aqui a longa lista das pessoas que nos auxiliaram na fabricação desta nova obra de vulto. É o que fazemos agora, agradecendo a contribuição de: Ana Lavratti, André Haack, Antenor Peixoto de Castro (Tinoco), Antônio Carlos Lima, Berenice Manta, Beth Nogueira, Cícero Haical, Clayton Rocha, Dadá Cazarré, Flávio Gastaud, Gislaine Barão, Graça Lanzetta Haack, Hernane Cavalheiro, Horácio Oliveira, Jorge Malhão, Sérgio Cabral, José Cunha, Júlia Curi Hallal, Kledir Ramil, Kleiton Ramil, Letícia Manta, Luísa Cazarré, Luiz Olmer Cazarré, Marco Aurélio Morales do Nascimento, Maria de Fátima Cunha, Maria Lúcia Vera Cruz, Mauro Brandão, Nara Cazarré, Octávio Otero Villar, Odilon Solemio Gonçalves, Ronaldo Barão, Paulo Ivan Medeiros, Teresa Cunha, Rui Enderle, Samir Curi Hall, Solon Silva e Zé Ricardo Castro.

Protegendo os inocentes
Por fim, exigiu-nos O Empresário Paulista que citássemos aqui também o nome dos nossos novos colabores efetivos, entre os quais se acham respeitáveis causídicos e renomados artistas. Não! Isso não faremos! Não alcaguetaremos pessoas honestas que, inadvertidamente, a nós se juntaram em mais esse lance de pirataria e pilhagem. São, até prova em contrário, cidadãos honestos e devem ter sua alegada respeitabilidade preservada.

Um tapa na intelligentsia planetária
Por fim, para fechar a conta, parodiando Kleiton e Kledir, encerraremos este nosso robusto ensaio estilístico com uma frase que, sem dúvida, é um repto à intelectualidade mundial:
“Homero, Shakespeare: deu pra vocês!”