ARTIGO – A SANTA ECLÉTICA DO GASPAROTTO

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A santa eclética do Gasparotto

“Para onde voou a pomba?”

Luiz Ricardo Lanzetta é jornalista e integrante da equipe Treze Horas.

Luiz Ricardo Lanzetta*

Brasília fora conhecida como o ajuntamento humano mais ecumênico do Brasil, num passado não muito distante. Quando havia a prática política normal por aqui, o fenômeno era constatável em todos os restaurantes, logo após o terçar das armas verbais nos grandes palcos do Congresso.

O congraçamento informal entre os litigantes, fingidos ou não, era constatável por cantos e recantos das suas asas e lagos. Mas houve um lugar ainda mais especial, o restaurante Stella Grill, no Setor Comercial Sul, do gaúcho Celso Kaufman, que tinha ao fundo um mesão coletivo, ao estilo Última Ceia, dos retratos medievais de cenas bíblicas.
Quem chegava, pegava o seu lugar sem apresentar carteirinha de sócio ou citar cargos e amizades.

Sobre quem costumava ir – sempre na hora do almoço – é difícil. É mais fácil saber quem nunca. Era o mais descontraído pedaço da antiga área comercial da Capital. Uma esquina eclética, como a cidade assim chamada, situada ao lado do DF, que reúne de kardecistas a maçonaria.

O famoso restaurante Piantella também teve o seu papel como amortecedor geral. Mas lá, as mesas eram partidárias e tinham até lideranças. Era livre, mas formal. Quando teve um breve espasmo de vida, reabriu com fotos de jornalistas e políticos na parede. Virou uma espécie de museu kitsch do médio clero do jornalismo e da política. Ficou no ar um notório perfume de novo riquismo oportunista como seu último suspiro.

Celso Kaufman chegou a Brasília há 50 anos. Aqui, entre várias atividades, foi sócio do prestigiado advogado pelotense Carlos Augusto Piquet Coelho. O advogado era neto do Barão de Santa Marta, Luís Maria Piquet, nascido no Rio de Janeiro 1824 e morto em Pelotas em 1904. Kaufman é viciado em generosidade.

Tem o prazer em resolver os problemas dos amigos e conhecidos. Ele me informou que outro velho amigo, o também lendário colunista social Paulo Gasparotto, de Porto Alegre, tinha um problema não resolvido há bastante tempo. Demasiadamente longo, como a minha idade. Gasparotto adquiriu uma parte de uma dessas obras bíblicas conhecidas como Santana Mestra, um conjunto composto por Nossa Senhora e Santa Ana.

O jornalista gaúcho comprou a sua parte no renomado antiquário de Antonieta Lague, há 70 anos, e tem a premonição e calafrios de que a outra parte da estátua pode andar por perto. Gostaria de reuni-las, antes de juntar-se às duas, devoto que é. A obra, em seu conjunto, pertenceu ao Barão de Santa Marta. Gasparotto tem certeza de sua autenticidade, uma vez que comprou, no mesmo antiquário, uma espevitadeira, proveniente do espólio Barão, já devidamente certificada.

Tem-se um novelo aqui. Vamos tentar desenrolá-lo. O jornalista Henrique Pires, secretário municipal em Pelotas, acha que a Santana Mestra do Barão de Santa Marta é proveniente da Colônia do Sacramento, ali nas bandas orientais, um antigo reduto português. Era de onde vinham muitos ornamentos, como a figura de São Francisco de Paula, o padroeiro da cidade, na Catedral de Pelotas.

Depois de fazer uma baldeação em Mostardas, às margens da Lagoa dos Patos, a estátua chegou a Pelotas em 1818. Henrique Pires é muito ligado à história e à cultura. Nesses tempos em que ressoam em nossas memórias o barulho da marcha “passo ganso” e os miasmas das fogueiras de livros, de obras de artes e de pessoas, ouvi-lo falar nos relembra um fato recente.

Convocado a atuar em sua área, no Planalto, ouviram-no murmurar “cultura” e, por suposto, tomou um balaço na testa. Perguntaram o seu nome, a seguir, só por razões burocráticas. Sua morte administrativa foi constatada no ato. O ecumenismo anda frágil por aqui e no Brasil. E o espírito de porco de Bento Manuel circula forte pelo Rio Grande afora.

Recordo a Henrique, maliciosamente, que não faz tanto tempo assim, quando ainda se descreviam as migrações silenciosas de centenas de estátuas barrocas das igrejas mineiras para palácios e mansões de políticos e empreiteiros. O assunto era pauta das conversas ecléticas da cidade. Os “santos turistas” desfilando discretamente na rota do charme entre Minas, Bahia e Distrito Federal.

O seccionamento das santas do Barão, para ele, não foi tão misterioso ou suspeito. Famílias em declínio financeiro costumam se desfazer de seus objetos sem muita pompa e
circunstância. Na prática, poderiam ter duplicado o preço da santa, deixando ambas com a cara de quem pergunta: ”para onde voou a pomba que estava aqui?”

Como naqueles programas de TV, há uma filha à procura de sua mãe. Ali, na representação artística, é a futura mãe de Cristo. Por outro lado, pode haver a angústia invertida: onde foi parar a minha filhinha? Por favor, quem souber o paradeiro da avó de Jesus, a Santa Ana, sogra do marceneiro José e esposa de São Joaquim, os padroeiros dos avós, deve passar a informação ao jornalista Paulo Gasparotto.

Ele manterá sigilo absoluto, pois nos prometeu, caso tenha êxito, fazer uma doação a alguma igreja, museu ou instituição de caridade. A minha língua eu não garanto. No mínimo, com a autonomia que tem, vai relatar tudo ao Celso e a toda sua confraria, hoje itinerante, a se deslocar diariamente pelos restaurantes da cidade.