ARTIGO – A ESSÊNCIA DO BAVÁRIA

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A ESSÊNCIA DO BAVÁRIA – (Texto publicado após a morte de Max Buchweitz)

Por Clayton Rocha

Max se foi. Bem depois de tantos outros, aqueles que tinham lugar cativo no bar de tantas décadas. Mas, por sorte, sobrou ainda o seu exemplo, a sua história de vida, a sua constância, a sua devoção à Casa, ingredientes estes que se constituem na essência do Bavária. Max Buchweitz ofereceu trinta e oito anos de sua vida ao restaurante que é ponto de referência de Pelotas. Ainda bem que essa marca registrada haverá de ser preservada pelo Max Francisco Buchweitz (o Kiko); pelo Filhinho, o garçom de sempre; pelo Fernando e o Loro, as conquistas mais recentes do Bar; e por todos aqueles que compreendem a tradição do lugar. Já sabemos que é deles, por serem os continuadores, a responsabilidade de captar, em momento especial, a “alma da casa”, aquela que fica, que não vai embora nunca, que não foi com o Érico, nem irá com o Max, simplesmente porque se situa numa faixa acima da transitoriedade da vida, dispondo-se a vencer o tempo, a substituir os homens e a enfrentar, com dignidade, toda sorte de adversidades. Não fosse assim, e as obras morreriam conosco, e não haveria tradição nenhuma, e o Bavária já seria apenas uma lembrança. Ao permanecer aberto, o Bavária perpetua o próprio Max.  E o guarda para sempre. Retendo, na memória dos seus frequentadores, o vai e vem do antigo proprietário, toda a sua solicitude, aqueles que eram os seus gestos, as suas falas, os seus silêncios, a sua presença junto às mesas, os seus agrados e as suas cortesias durante os últimos 30 anos. E todas essas coisas somadas servirão, no tempo certo, para revigorar e reacender o Bar mais famoso de Pelotas.

Bar Bavária

Sabe-se que muita gente tem ligado lá para o bar, ultimamente, perguntando se o “seu” Max está. Até da Alemanha ligaram, pra desejar feliz ano novo. Mas o pessoal da casa tem dito simplesmente que o “seu” Max não está. Saiu. Não disse pra onde ia. Pois talvez tenha sido essa a melhor resposta. Até porque o Max continua ali, atrás do balcão, fazendo um troco, tirando um chope, ou então indo em direção à mesa dos seus amigos, sempre pronto a lhes oferecer atenção. Sinto que aqueles que depositam todas as suas energias, emoções e razões de viver em um determinado lugar, passam a fazer parte daquele ambiente. Tornam-se, às vezes, apenas invisíveis do ponto de vista físico, porque nada nos aproxima mais de uma ausência do que a saudade e a boa lembrança.

Na minha condição de assíduo frequentador da Casa, e lá já se vão trinta anos de convívio com as antigas turmas do Bavária, desconfio essa a melhor resposta. Até porque o Max continua ali, atrás do balcão, fazendo um troco, tirando um chope, ou então indo em direção à mesa dos seus amigos, sempre pronto a lhes oferecer atenção. Sinto que aqueles que depositam todas as suas energias, emoções e razões de viver em um determinado lugar, passam a fazer parte daquele ambiente. Tornam-se, às vezes, apenas invisíveis do ponto de vista físico, porque nada nos aproxima mais de uma ausência do que a saudade e a boa lembrança.

O tradicional Filé a Parmeggianna do Bavária.

Na minha condição de assíduo  frequentador da Casa, e lá já se vão trinta anos de convívio com as antigas  turmas do Bavária,  desconfio  até  que o Paulo Tholozan Dias da Costa, o Bida Lafayette Terra Leite, o Pedrinho Mechereffe, o Gilberto Zambrano, o Wálter Santos, (Ah…Valtão, “Que colosso!” era aquela mesa 10), o Bento Fernandes de Barros e o Mário Renck Reis  já andaram procurando o Max Buchweitz e o Érico Fensterseifer, numa mesa do andar lá de cima, para debaterem o futuro do Bar, em nome de todas aquelas energias que sempre preservaram a “alma da casa”.

Um símbolo da cidade: Bavária Bar.

De outra parte, caso houvesse necessidade de manifestação da descendência dos antigos clientes do Bavária, nós, os sobreviventes, já saberíamos a quem indicar. Nomearíamos, no ato, uma testemunha, um poeta e alguém que se encarregasse de trazer um violão.  Chamaríamos o Aníbal Néri Osório para testemunhar, o Mário Osório Magalhães em nome de todos os poetas, e o Dr. Cláudio Luís Barros, para que o Tatuí fizesse o que sabe fazer. De resto, estaríamos afetiva, poética e musicalmente muito bem representados. Restaria registrar tudo isso num caderno de bar, mandar “pendurar” toda a bebida degustada naquela mesa dos sonhos que não se forma mais, e guardar a síntese de tantas de nossas noitadas numa simples rubrica que pudesse ficar numa toalha de papel de balcão, mas desde que, para isso, se impusesse uma só condição: As testemunhas, em nome de todos os sobreviventes, só testemunhariam desde que se testemunhar, o Mário Osório Magalhães em nome de todos os poetas, e o Dr. Cláudio Luís Barros,  para que o Tatuí fizesse o que sabe fazer. De resto, estaríamos afetiva, poética e musicalmente muito bem representados. Restaria registrar tudo isso num caderno de bar, mandar “pendurar” toda a bebida degustada naquela mesa dos sonhos que não se forma mais, e guardar a síntese de tantas de nossas noitadas numa simples rubrica que pudesse  ficar numa toalha de papel de balcão, mas desde que, para isso, se impusesse uma só condição: As testemunhas, em nome de todos os sobreviventes, só testemunhariam  desde que se enveredasse pela madrugada  adentro, sem nenhum compromisso com horários, pois o relógio não existe nas horas felizes; e exigiriam ainda que essa  fosse a principal noite de bar, noite de Lua Cheia, noite de espantar fantasmas,  noite de violão…tendo, de fundo, todas as  lendas do Bavária  por contagiante inspiração.