ALFAIATE COBRA DE ALFAIATE?

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ALFAIATE COBRA DE ALFAIATE?

João Manoel King*

No terceiro dia de frequência ao quartel, recebi o número 753 que me acompanha até hoje quando arrisco na loteria ou sorteios domésticos. Em épocas anteriores chegou a fazer parte de senhas bancárias e de aplicativos, que aos poucos foi sendo retirada por questões de segurança.

Até então, participávamos das atividades, vestindo trajes civis e ansiosos em receber nossas fardas para uso em serviço e passeio.

No meio daquela tarde fomos todos reunidos no alojamento e por ordem de chamada fomos recebendo nossos trajes verde-oliva, cujas fazendas, previamente cortadas, deveriam ser encaminhadas a uma costureira ou alfaiate para a confecção final.

Além das fazendas recebíamos os coturnos (botas de couro com longos cordões e sola de borracha, meias de lãs, cuecão para os dias mais frios, boné pé de pato, com uma grande aba, camisetas para educação física, calções, enfim, um verdadeiro enxoval que deveria durar 8 meses e devolvidas no momento da baixa.

Olha a minha felicidade: meu pai era alfaiate, um dos mais conceituados da cidade, vou ter a farda mais linda do batalhão.

Chegando em casa mostrei ao velho todo o material para que ele começasse o trabalho de confecção. No dia seguinte ele me chama e me diz “sabes que na rua 7 de Setembro existe um alfaiate especializado em fardas militares e colegiais, vou levar para ele fazer, afinal, assim como dentista não cobra de dentista, médico não cobra de médico, alfaiate não cobra de alfaiate.

Realmente, meu pai, John Alfred King, estabelecido à rua 15 de Novembro, 673, entre Voluntários e Neto, era um mestre em trajes masculinos como ternos, coletes, sobretudos, utilizando os mais diferentes tecidos que eram vendidos aos fregueses ou trazidos por eles, muitas vezes de outras países.

Chegando no alfaiate da rua 7 as medidas foram tomadas e a promessa de entrega em 3 dias para poder cumprir as exigências do Exército. No prazo combinado fui com meu pai buscar as fardas cheio de expectativa para vesti-la e meu pai orgulhoso de ter feito um bom negócio. Após a prova final e tudo perfeito eis que o alfaiate das fardas apresentou a conta, causando a maior surpresa no meu pai que voltou indignado para casa. Pelo que me lembro, nunca mais se falaram.

*Professor e integrante da Equipe Treze Horas.