
A VINGANÇA DO ALIENISTA
Luís Filipe Castro Mendes (*)
Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos, a que tivemos o bom senso e o bom gosto de atribuir o Prémio Ferreira de Castro para obras de autores das comunidades portuguesas no mundo, é um livro muito curioso, muito inteligente e muito divertido, ao mesmo tempo.
O seu autor pertence à extensa comunidade dos lusodescendentes, daqueles que trazem consigo as duas nacionalidades: com as duas vivem e para as duas escrevem.
Os contos reunidos neste livro participam de uma visão paródica da literatura brasileira: todos têm como interlocutor um escritor brasileiro (com exceção do “Velho e o mar”, o mais pungente de todos, que tem apenas a referência ao título de Hemingway) e com cada um desses escritores vem o autor medir forças, com ironia e invenção.
Depois de uma reunião literária, vista com enfado pelo olhar “caceteado” e “aperreado” de Graciliano Ramos, onde a proverbial secura do grande escritor vê como grotesco todo aquele mundo, passamos no conto seguinte ao poema que Joaquim Cardozo poderia ter escrito, numa simples redondilha maior, dirigido à criança que o segue e admira, numa evocação do grande poema de Cardozo, que é a “Visão do último trem subindo ao céu”.
“O Velho e o mar”, de curta referência hemingwayana, comove-nos a sério com o seu bem construído melodramatismo. Já o “Discurso da mãe do goleirinho” volta a ser um diálogo entre um poema narrado na redondilha maior das histórias de cordel e uma narrativa de memórias infantis, sendo que as duas narrativas, em poesia e em prosa, se articulam na perfeição da sua conseguida simplicidade.
E chegamos por fim à divertidíssima novela em que o personagem do “Alienista” de Machado de Assis se vem revoltar contra as “mentiras” que sobre ele o grande escritor teria lançado (“uma tremenda desfaçatez escriturária, um malfadado conto”) e faz-nos entrar num discurso delirante, paródico e quase carnavalesco, em que toda a obra de Machado se vê impiedosamente castigada e diminuída, pela forma anunciada no princípio do texto: “Quase tudo o que ali está consignado ocorreu, sim, mas de modo completamente inverso”. Tomar o próprio texto de Machado para o inverter e deformar, como num jogo de espelhos côncavos e convexos, é o “modus faciendi” desta novela, a “Breve memória de Simeão Boa Morte”, que dá o título ao livro.
Esta novela constitui uma obra notável no seu jogo irónico, em que se reconhece um invulgar conhecimento da literatura, das suas glórias e dos seus alçapões. Paradoxalmente, é uma grande e sincera homenagem ao seu mestre, a Machado de Assis.
Lourenço Cazarré, trabalhador da nossa língua comum, filho da comunidade portuguesa e filho do grande Brasil, bem merece ter este livro publicado e lido entre nós, como uma obra elaborada e inovadora que é, sob o “manto diáfano” (diria o Eça) do humor e da ironia.
(*) Diplomata, ex-ministro da Cultura de Portugal (2016-2018)
Breve memória de Simeão e outros contos poético, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 2024, 217 páginas.










