A MÁQUINA MORTÍFERA DE BESTIALIZAR BRASILEIROS – PARTE 4

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Luiz Ricardo Lanzetta, 72, jornalista, é pelotense e reside em Brasília.

Um dinheirão para morrer

Luiz Ricardo Lanzetta*

Nunca se gastou tanto dinheiro nas duas campanhas presidenciais, quando tucanos e petistas se enfrentaram em 2010 e 14. Com orçamentos livres e financiadores soltos, a festa foi grande. O resultado foram vitórias de Pirro e derrotas arrogantes. Trocaram tantos tiros que até hoje ninguém sabe quem morreu, não é Kid Morangueira?

Das duas chapas, Dilma teve sucesso na primeira, mas já foi para a segunda baleada. Ferida na estrada, perdeu o mandato. Aécio Neves e José Serra, os adversários, perderam o protagonismo embaixo de uma torrente de acusações. Seus candidatos a vice sumiram ou se esconderam. E o vice que assumiu, quase caiu, e teve que passar pelo constrangimento de uma detenção após deixar o poder.

O pessoal do marketing e da propaganda fez parte dos inquéritos como sócios atípicos de arrecadações excessivas.

As disputas eleitorais no Brasil têm por comum o seu financiamento permanente e a propaganda eleitoral feita dentro dos mesmos padrões estéticos e programáticos. Abastecida pelas mesmas pesquisas, auscultadas junto aos mesmos públicos. Todos os tesoureiros de todos os lados atacam todas as fontes, limpas ou sujas, do outro lado. A fim de obter o dinheiro suficiente para comprar os mesmos slogans e mandar suas sobras para os mesmos doleiros.

Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva em debate na eleição presidencial de 2006 – Foto: Orlando Brito

No caso de sucesso eleitoral, para contratar os mesmos fornecedores com superfaturamentos semelhantes. O financiamento público de partidos e campanhas unificou o caixa e manteve as vítimas. No Congresso, os interessados diretos votam o seu “pirão primeiro” com fome de anteontem.

Grosseiramente, estas imagens me vêm à cabeça quando ouço gritarias contra a aliança eleitoral presumidamente anunciada entre Lula e Geraldo Alckmin, um tucano, esteja em que legenda estiver. Estranho barulho, uma vez que tucanos e petistas nunca foram virgens nesta área. Sempre se aproximaram e trocaram interesses, mais em cima de seus defeitos que de suas virtudes.

Esta falsa agitação é animada pela visão binária radical dos jornalistas da política. Neste caso – a metodologia de análise -, os jornalistas de esportes são mais sofisticados, pois usam uma terceira variável, o empate. Os pontos virtuosos, entre tucanos e petistas, foram os programas sociais “rooseveltianos” e uma aproximação – para entretenimento dos acadêmicos – à social-democracia europeia.

Muitos nomes do alto e baixo tucanato foram bem aproveitados no primeiro Governo Lula, como também a continuidade da política econômica de Pedro Malan. Existem “caixas dois” dessas agremiações batizadas com o mesmo nome: as propinas na Petrobras, o consórcio de Furnas, os irmãos Batista, as empreiteiras, indicações para os tribunais, constituições de institutos e fundações, por aí afora.

Candidato à presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes. Foto: Orlando Brito

A grande aliança eleitoral explícita entre petistas e tucanos deu-se na eleição de 2008, para a prefeitura de Belo Horizonte, tendo como amálgama Márcio Lacerda, do PSB, ex-vice-ministro de Ciro Gomes, no governo Lula. Um “cirista” como azeitona do dry martini, o fino coquetel “tucanopetista”.

A aliança foi formalizada por Aécio Neves (PSDB), governador de MG, e Fernando Pimentel (PT), prefeito de BH, no auge positivo de suas reputações. O outsider Márcio Lacerda (lembram-se dele?) venceu, cumpriu dois mandatos sobre os quais “a história já tem o seu julgamento”.

Na eleição seguinte, quando o tucano paulista José Serra enfrentou Dilma Rousseff, houve nova aliança informal em MG, favorecendo a chapa presidencial do PT e a do governo estadual do PSDB, com Antonio Anastasia. Uma das vagas do Senado foi para Aécio Neves. A operação foi batizada popularmente de “Dilmasia”.

Assim como não existe crime perfeito, os arranjos políticos arquitetados nem sempre funcionam: a segunda vaga no Senado, destinada a Fernando Pimentel, foi abiscoitada por um candidato que não amava ninguém, morava em Juiz de Fora e estava fora do acordo: Itamar Franco.

2014: o tucano Aécio Neves x a petista Dilma Rousseff. Disputa pela Presidência do Brasil – Foto: Orlando Brito

Na disputa entre o carioca mineiro Aécio e a mineira gaúcha Dilma, o quadro já era de confrontações. Durante a campanha presidencial de 2014, os dois partidos gastaram a soma pornográfica de R$ 2 bilhões e 200 milhões – no oficial! – em propaganda. No entanto, os gastos em marketing e demais maldades correlatas mostram que algo saiu do controle. Foram mais de R$ 5 bilhões declaradamente, entre todos os partidos. Um terço de tudo o que o mercado de mídia comercial movimenta em um ano. No caso da política, não inclui a compra do espaço publicitário nos veículos, que é a parte mais cara. A publicidade privada investe para promover positivamente todos os produtos, desde o consumo até imagens institucionais.

Já nas campanhas eleitorais, a dinheirama é empregada apenas para a produção de peças que tentam arruinar a imagem alheia ou para a montar cenas mais fictícias que ficcionais de governos em ação. Para assar o leitão, tocam fogo na fazenda.

Os então grandes financiadores de ambos os lados assistiram bestializados a destruição mútua de reputações, em nome de se chegar ao poder agindo com honestidade para o bem de todos. O custo final, para inúmeros desses financiadores, foi se ajoelhar no milho e contar seus segredinhos em praça pública.

Muitos perderam os negócios, outros a vergonha, todos o rumo. Ganhou a extrema direita jurídica, ambiental, partidária, anormal, etecetera e tal. Se unirem suas forças, novamente, em 2022, agora formalmente, tucanos e petistas podem olhar mais para trás um pouquinho, aquém do ontem. Para o anteontem, quando estiveram em frentes amplas na luta pela democracia e com todos os acordos que fizeram com os democratas adormecidos por conveniência. As atuações mesquinhas e personalistas recentes, internas e externas, só servem para a estratégia de outras repúblicas como as do Rock River carioca e dos camisas pretas das Araucárias.

O problema não são as alianças mais ou menos à direita. Ou à esquerda. O problema é a imitação e repetição dos maus exemplos de ambos os lados. Acendendo a luz do abajur lilás da política nacional sobre falsas mágoas e hipocrisias vamos constatar que ninguém pode reivindicar para si ou cobrar de outros posturas rigorosas e impecáveis no campo programático ou ideológico. Só eleitores ingênuos e militantes fascinados acreditam que há pureza escondida nas sombras deste grande salão.

*Jornalista