A MÁQUINA MORTÍFERA DE BESTIALIZAR BRASILEIROS – PARTE 2

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Luiz Ricardo Lanzetta é jornalista, reside em Brasília, é integrante da equipe Treze Horas.

Máquina Mortífera de bestializar brasileiros – Parte 2

Destruição ambiental

Luiz Lanzetta*

Santa Catarina deu 78% votos no segundo turno, em 2018, a Jair Bolsonaro sem pestanejar, com muito orgulho, com muito amor. Elegeu também extremistas de direita e de extrema tacanhice para todos os escalões. Quem só olhar para este quadro estático no tempo, pode achar que sempre foi assim.

E que, em outros momentos da história, nunca houve um equilíbrio regional, que poderia ter se transformado num equilíbrio político. Em cenários em que os velhos PSD, UDN e PTB enfrentavam-se mutuamente, sem que houvesse esmagadoras predominâncias. O que houve para que este abismo se abrisse sob nossos pés?

Poderíamos responder sobre um ou outro aspecto, se olharmos os desequilíbrios setoriais nas áreas política, cultural, educacional, religiosa e psicopática que é onde residem o perigo e a mídia. Recuamos 40 anos, para 1978, e veremos uma cena impossível de ser reproduzida hoje, tendo em vista o clima de múltipla intolerância em que vivemos.

No meio da tarde, num dia de semana, estamos no estúdio do apresentador Celso Pamplona, chamado de “Vênus Platinada”, um colunista social que mantinha um programa, na TV Cultura, afiliada à Rede Tupi, então a única estabelecida no Morro da Cruz, em Florianópolis.

Ao seu lado, de pernas cruzadas, numa calça de vermelho gritante, estava o primeiro ativista gay brasileiro, João Antônio Mascarenhas, um homossexual e esquerdista declarado.

Celso, espalhafatosamente, perguntava a João sobre o lançamento do jornal Lampião da Esquina, o primeiro mensário  gay do Brasil, marcado para aquela noite, no centro da cidade. Não houve escândalo na cidade. A ilha da magia prosseguiu com a sua serena rotina.

Animação mesmo teríamos no ano seguinte, em 1979, quando estudantes da UFSC atracaram-se fisicamente com o último ditador, João Figueiredo, na Praça XV, a mais central da cidade. A sonifera ilha do Gilberto Gil acordara.

Em 1974 e 78, Santa Catarina mandara dois senadores do MDB para o Senado Federal. Em 1982, Jaison Barreto perdeu por menos de 1% o governo estadual para Esperidião Amin. Porém, os votos do PT e PDT somados, dariam fácil a vitória ao médico esquerdista, se segundo turno já houvesse,

A primavera Catarina bateu na trave da história. O PMDB ainda fez barba, cabelo e muito bigode com Dirceu Carneiro e Nelson Wedekin (Senado), os dois da esquerda, e Pedro Ivo para o governo, em 1986. Mas já era Nova República e José Sarney estava na presidência.

Floripa teve seus quatro anos de Bolonha ao instalar o comunista Sérgio Grando na Prefeitura, em 1992, nas águas do impeachment de Fernando Collor. Este ciclo coincidiu com uma mudança radical nos veículos de comunicação de Santa Catarina. Até então, as regiões se equilibravam neste setor.

A capital tinha o jornal de maior circulação, O Estado e a TV Cultura, que retransmitia a TV Tupi. Hospedava também uma grande sucursal do Correio do Povo, de Porto Alegre, muito forte no oeste do Estado, ocupado por gaúchos e seus descendentes. Joinville tinha o fortíssimo diário A Notícia e, Blumenau, o prestigiado Jornal de Sta. Catarina e a TV Coligadas, que transmitia a TV Globo.

Em Criciúma, ao Sul, a TV Eldorado repassava a TV Bandeirantes. Os jornalistas da capital se espelhavam profissionalmente nos jornais e revistas do Rio de Janeiro. A referência principal era o Jornal do Brasil. O primeiro Curso de Jornalismo de SC foi aberto em 1979.

Neste mesmo ano, foi inaugurada a TV Catarinense, do grupo gaúcho que viraria RBS e que assumiria o controle da TV Globo no Estado. Em quase 35 anos, até a véspera da eleição de 2018, a RBS monopolizou a propriedade dos veículos de comunicação, abocanhou a principal fatia do mercado publicitário e padronizou para baixo a qualidade cultural e informativa dos catarinenses.

Quando se retirou, vendeu seu espólio para um grupo que enriqueceu com a fabricação e venda de medicamentos genéricos. Nesse período de ocupação, os empresários gaúchos acumularam seis canais de TV, os jornais Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina, A Notícia, Hora de Santa Catarina e as rádios Atlântida, CBN Diário e Itapema.

Deixaram para trás um cenário de Berlim 1945, na comunicação, que teve a outra parte importante ocupada pelos neopentecostais do Edir Macedo. O Estado de Santa Catarina tornou-se um bom laboratório para se constatar  empiricamente, o que acontece a uma população quando é submetida a tal massacre massivo durante três décadas.

Santa Catarina poderia ter seguido com a expansão horizontal dos veículos de comunicação? Dentro das práticas capitalistas, havia um equilíbrio entre concorrentes.

O quão saudável é de se avaliar, mas não agora. Neste período, a concentração selvagem das empresas de comunicação preponderou uma discussão sobre a qualidade da informação desses veículos, fazendo crer que os esquerdistas queriam assumir o controle editorial dos conglomerados regionais e nacionais.

Para “melhorar” as notícias. Os trustes foram se fortalecendo no vácuo legislativo, uma vez que falar-se em atualizar a lei da radiodifusão de 1962, passou a ser coisa de comunista. De passagem, ressalta-se que este ordenamento de leis foi feito no governo de João Goulart, derrubado por ser esquerdista.

Hoje, se petista eu fosse, na perspectiva de poder, proporia um choque de capitalismo liberal para as comunicações no Brasil. Tudo ficou tão atrasado, que derrubar cidadelas medievais, passou a ser um avanço sobre o feudalismo da comunicação.

Quem chegou até aqui, vai me perguntar se a RBS Catarinense inventou o Bolsonarismo? Se fosse hoje, no episódio do general Figueiredo os homens de bem armados livremente teriam protegido o general da sanha dos comunas juvenis?

Se a TV Cultura, o apresentador Celso Pamplona e o militante gay Mascarenhas seriam presos por atentado ao pudor e aos bons costumes? Ou se a atuação de um monopólio, na prática, poderia desequilibrar uma sociedade, fazendo-a pender para extremismos fanáticos?

Respondo com firmeza: não sei.

Neste cabaré da vida, sou apenas um cantor desafinado.

Esta série de artigos inocentes recomenda a leitura do livro Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho, Cia das Letras.

E manda um abraço às famílias daqueles bravos estudantes da praça XV que já faleceram.

*Jornalista