
Dos Bastidores de Abraham Lincoln ao Solo do RS
Dos EUA – Paulo Gastal Neto
A história oficial costuma registrar os tratados, as linhas divisórias e as grandes assinaturas que moldam as fronteiras pelo mundo afora, ao tom dos acontecimentos vultuosos e os pormenores passam, muitas vezes, despercebidos. Raras vezes ela se detém nas afinidades humanas, nas trocas de livros e nas amizades que tornam esses grandes feitos possíveis. Poucos brasileiros sabem, mas a consolidação do nosso território e até mesmo a modernização da nossa democracia possuem uma ligação direta ao Salão Oval da Casa Branca e aos círculos mais íntimos de Abraham Lincoln. É isso mesmo. E esta é uma daquelas histórias verídicas que ninguém imagina. E no centro dessa teia diplomática de alto nível estava o gaúcho Joaquim Francisco de Assis Brasil.
Lembrado no Rio Grande do Sul como jurista, político e o homem que idealizou o Castelo de Pedras Altas, recentemente reformado, Assis Brasil foi um homem público brasileiro de relevância global. Deputado federal, presidente do Rio Grande do Sul e Ministro da Agricultura, ele deixou sua marca definitiva na estrutura do país como fundador do Partido Libertador e o grande arquiteto da nossa Justiça Eleitoral. Foi através do código de 1932, elaborado por Assis Brasil, que se instituiu o voto secreto, passando pela garantia do voto feminino e a criação da própria urna eleitoral: a engenharia democrática brasileira nasceu de sua mente brilhante.
Homem do mundo, Assis Brasil serviu como embaixador do Brasil nas principais capitais do Ocidente, incluindo Buenos Aires, Lisboa e Washington, além de chefiar a missão diplomática no Reino Unido, chegando a ser nomeado embaixador na China, embora não tenha assumido o posto.
Ao lado do Barão do Rio Branco teve atuação decisiva em relação as nossas fronteiras. Juntos, Assis Brasil e o Barão, brilharam nas complexas negociações que definiram as linhas divisórias entre o Brasil e o Uruguai e entre o Brasil e a Bolívia. A importância da dupla foi tamanha que rendeu homenagens eternas nos mapas: o município de Assis Brasil, no Acre, e a cidade de Rio Branco, no Uruguai. Mas foi durante o seu período como embaixador nos Estados Unidos, entre 1898 e 1903, que Assis Brasil cruzou caminhos com um personagem central da história americana: John Milton Hay. John Hay não era um burocrata comum. Advogado em Springfield, Illinois, ele começou a trabalhar no escritório de seu tio. Logo ao lado, funcionava outra banca jurídica, comandada por ninguém menos que o Dr. Abraham Lincoln. A proximidade física virou uma amizade inseparável. Hay tornou-se secretário particular de Lincoln durante a sangrenta Guerra da Secessão e permaneceu ao lado do presidente até o seu trágico assassinato. Décadas mais tarde, Hay viria a se tornar Secretário de Estado dos Estados Unidos por sete anos, servindo os presidentes William McKinley e Theodore Roosevelt até morrer no cargo, em 1905, aos 66 anos.
Quando Assis Brasil chegou a Washington, a questão do Acre fervilhava. Bolívia, Peru e Brasil disputavam aquelas terras ricas em borracha. O que aproximou o embaixador brasileiro e o Secretário de Estado americano, inicialmente, foram as negociações de alto nível sobre o conflito. A habilidade de Assis Brasil garantiu que os Estados Unidos permanecessem neutros na disputa, abrindo caminho para a posterior anexação do Acre ao território brasileiro. Dessa mesa de negociações nasceu uma amizade profunda. Donos de trânsito livre e frequentadores assíduos do Salão Oval da Casa Branca, Assis Brasil e John Hay passaram a compartilhar muito mais do que memorandos oficiais. Jantavam juntos com frequência, debatiam os rumos da geopolítica mundial, trocavam livros e colaboravam em artigos assinados por ambos. Havia entre eles o espelhamento de duas trajetórias brilhantes, inclusive o fato de que ambos, em momentos diferentes de suas carreiras, serviram como embaixadores de seus respectivos países no Reino Unido.
Essa amizade transatlântica não se perdeu no tempo. Quem visita hoje o Castelo de Pedras Altas, a fortaleza de 44 cômodos construída por Assis Brasil entre 1907 e 1913, encontra um verdadeiro tesouro escondido. Nas estantes e arquivos do castelo, repousa uma farta correspondência original, além de artigos e livros que documentam a sólida ligação entre o Secretário de Estado americano e o diplomata gaúcho.
Olhar para a trajetória de Assis Brasil e sua conexão com John Hay é compreender que a diplomacia da virada do século XX era feita de erudição, respeito mútuo e caráter. Naquele tempo o Brasil não apenas garantiu suas fronteiras, mas importou o espírito de estadistas que entendiam o valor das instituições e da democracia, muito diferente das relações de hoje.
*Paulo Gastal Neto é radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br


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