BREVE MEMÓRIA DE SIMEÃO BOA MORTE E OUTROS CONTOS POÉTICOS

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Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos (*)

Hugo Pontes (**)

À época em que fizemos o curso superior de Letras, estudamos desde autores do Arcadismo até o Modernismo e a orientação que tivemos era a de que analisássemos as obras à luz da Teoria Literária. Certo ou não, assim o fizemos, escrevendo um ensaio, um resumo ou uma resenha. Nesses anos todos buscamos entender autores e obras. E, tudo isso, podemos chamar de leitura que, na sua essência, é o nosso entendimento – muitas vezes pessoal – do que o autor quis nos transmitir.

Há livros que contam histórias e há aqueles que parecem conversar com a própria literatura. Breve memória de Simeão Boa Morte e outros contos poéticos, de Lourenço Cazarré, pertence – dentro da nossa leitura – ao segundo grupo.

O volume reúne cinco narrativas em que o autor explora um território particularmente sedutor, ou seja, aquele em que a ficção dialoga com a tradição literária.

Não se trata de simples homenagem nem de erudição exibida. Cazarré prefere o caminho da imaginação irônica, em que autores, personagens e memórias literárias podem surgir em situações inesperadas.

O conto que dá título ao livro exemplifica bem esse procedimento. Nele, o excêntrico alienista Simeão Boa Morte apresenta uma versão curiosa da história literária. Segundo ele, certas experiências de sua vida teriam servido de inspiração para um conhecido conto de Machado de Assis.

A premissa é deliberadamente absurda – e justamente por isso divertida. Ao brincar com a hipótese, Cazarré constrói um enredo que oscila entre paródia, homenagem e reflexão sobre a própria criação literária.

Nos demais contos, o autor continua a explorar registros variados: há ecos de memória familiar, lampejos de fábula e momentos de reflexão sobre a arte de escrever. Permanece, em todos eles, uma atmosfera poética, perceptível tanto no ritmo da linguagem quanto na construção das imagens.

Acreditamos que o mérito maior do livro esteja justamente em lembrar algo que muitas vezes se perde no debate literário contemporâneo: a tradição não é um peso, e sim uma matéria viva.

Ao revisitá-la com humor e inteligência, Cazarré mostra que dialogar com o passado não significa repeti-lo, mas reinventá-lo. E, nem momento em que parte da ficção parece oscilar entre o exibicionismo jformal e o realismo automático, essa combinação de imaginação, consciência literária e prazer narrativo soa não apenas rara, mas necessária.

(*) Crítica publicada no Jornal da Cidade, de Poços de Caldas – MG.

(**) Hugo Pontes é professor, escritor e jornalista,