UM PALÁCIO E SEUS CHARUTOS

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Um Palácio e seus Charutos

Henrique Pires*

Naquele ano de 1904 – nos Estados Unidos – a feira organizada em Saint Louis foi gigantesca. Lá estavam representações de 62 nações, mais 43 dos 45 Estados daquele país anfitrião. A visitação, aberta ao público, durou meses. De abril a dezembro.

Cada participante foi com o que tinha de melhor.

O Brasil, jovem República, tratou de caprichar no seu “stand” e na excelência de seus produtos. Lá mesmo construiu um prédio deveras portentoso, feito conforme contrato, de maneira a permitir sua desmontagem e futura utilização em algum outro lugar após nova remontagem. Assim foi feito, o General Souza Aguiar esmerou se no seu projeto eclético e lá foi edificado aquele que anos depois seria admirado na capital brasileira, onde foi remontado, o icônico Palácio Monroe. Aquele mesmo, futura sede da nossa Câmara dos Deputados e posteriormente a bela sede histórica do Senado Federal, lamentavelmente desmontado definitivamente em 1976 e sobre o qual já se publicou tanto.

Mas voltando a Saint Louis, o futuro Palácio Monroe era uma das edificações mais destacadas entre as cerca de 1500 que os demais expositores construíram. Dentro de cada uma delas, havia a “fina flor” daquilo que o país expositor produzia. Expunha o que pretendia exportar, obviamente.

No Rio Grande do Sul, quando a gauchada soube das premiações, ficou tremendamente orgulhosa, pois o Grand Prix (a medalha de ouro do grande prêmio) de melhor charuto do mundo fora destinada para um “puro” gaúcho , conquistada por uma empresa sediada em Rio Grande, da família Pook.

Alguns anos antes, ainda no tempo do Império, um jovem com pouco mais de 20 anos desceu de um navio no porto. Ele vinha em busca de novas oportunidades, já que até seus 17 anos, na Alemanha trabalhava ajudando seu pai enrolando e confeccionando charutos na pequena empresa que a família tinha em Hamburgo. Adolescentemente, Gustav Pook decidiu lá que aquilo não era vida para ele, resolveu circular um pouco pelo mundo e decidiu aventurar ao sul da América, onde na chegada conseguiu um emprego simples de caixeiro-balconista, onde atendia os clientes em alemão e muito em breve começou a perceber uma oportunidade rara que estava a olhos vistos: navios saiam daquele porto com grandes cargas destinadas a Cuba e o frete no retorno para Rio Grande era muito, mas muito barato. Ele que conhecia profundamente tipos de fumo, sabia como enrolar, identificava folhas específicas para fazer as capas, tinha crescido na Europa em meio a uma família que – ao natural – o moldou especialista e conhecedor do mercado. Ele estudou, planejou e em poucos anos, já casado com uma moça da cidade, conseguiu levantar o capital e abrir a primeira fábrica de charutos do Brasil, usando os fumos “havanos” que trazia diretamente daquela ilha caribenha .

Em seguida, o sucesso permitiu inauguração de uma grande filial no interior da Bahia, para lá iniciar a produção de charutos baianos.

Pook chegou a produzir incríveis 25 milhões de charutos por ano, empregando diretamente centenas de pessoas, além dos inúmeros serviços gerados junto aos sistemistas. Exemplo: milhares de caixinhas de madeira tinham que ser feitas para acondicionar os vários tipos de charutos  exportados para todos os continentes, isso movimentou pequenas fabriquetas de móveis, muitas das quais cresceram na sombra daquelas reiteradas encomendas.

Foi atrás daquele comprido balcão de armazém, observando o Oceano Atlântico, que aquele jovem percebeu o valor daquilo que havia aprendido dentro de casa, com seu pai, pois ali estava o caminho para a construção de um império industrial, de onde mais tarde saíram os produtos chancelados pelo júri internacional, que premiou com medalha de ouro em Saint Louis, os exemplares expostos dentro das instalações daquele palácio, que depois viraria sede do Senado, com seus afamados leões de mármore, em pleno coração do Rio de Janeiro.

*Jornalista e Historiador