
Migrantes de cuia e bomba (*)
Lourenço Cazarré*
Não faz muito, o Correio Braziliense publicou uma nota sobre os jornalistas pelotenses que trabalham aqui na capital da República. São quarenta, segundo o jornal. A notícia, é claro, veio como gracinha (vocês sabem ao que me refiro) mais do que por qualquer outro motivo. Risinhos e piadinhas idiotas. Mas a gente tira de letra.
Mesmo saindo mais por brincadeira, esta notícia revela um dado indesmentível: a colônia gaúcha cresce aceleradamente por aqui. Não são apenas pelotenses e jornalistas, claro. Vem gente de todos os quadrantes do Continente de São Pedro, gente de todas as profissões.
Bem, mas o que quero contar com esta minha lenga-lenga é que nós, os gaúchos, formamos uma nação no exílio. Não há dados, mas somos contados em centenas de milhares.
Primeiro, subimos pelo Oeste de Santa Catarina, depois pelo Sul e Sudoeste do Paraná e chegamos a Mato Grosso do Sul. Agora, estamos por todo o Brasil. Sul do Maranhão, Pará.
Hoje viaja-se de carro de Brasília a Uberlândia como se viaja entre Pelotas e Santa Vitória do Palmar. Plantações de arroz e soja correndo pela janela do carro. São os gaúchos-mineiros, tão ou mais numerosos que os gaúchos-goianos.
Somos os paus-de-arara das últimas décadas.
Dividimo-nos, basicamente, em dois grupos.
O mais numeroso, creio, é o dos agricultores. Em geral vendem suas terras (reduzidas por heranças sucessivas) para comprar áreas muito maiores pelos outros cantos do País. Chegam, instalam-se, formam uma cooperativa, criam um CTG e seguem em frente.
O segundo agrupamento é o dos paus-de-arara com canudo, no qual orgulhosamente me incluo. Quando cheguei a Santa Catarina, em 1976, formado em Jornalismo pela Católica, desembarcavam por lá, nessa mesma época, centenas de agrônomos, veterinários, professores, economistas e administradores de empresas formados nas universidades gaúchas.
Morando em Brasília há dez anos, percebo que o fenômeno se mantém. Muitos ficam aqui. Outros seguem: Rondônia, Acre, Roraima.
Somos os-paus-de-arara de cuia e bomba.
Reconhecemo-nos pelo sotaque. E pelo tchê, o bah! e o né?
Pelas frases que iniciamos sempre com um brusco “me dá”:
– Me dá um cafezinho.
– Me dá um maço de cigarro.
O exílio tem algumas vantagens. Daqui se pode evocar sonhadoramente a terrinha. Por aqui, qualquer ventinho vagabundo faz com que a gente se lembre do Minuano. Qualquer friozinho mixuruca de julho nos faz recordar as manhãs geladas do inverno sulino. Nas chuvas de janeiro me vejo de volta às ruas úmidas de Pelotas em agosto.
Bem, para encerrar, depois de falar dos paus-de-arara agricultores e dos com diploma, conto um causo verdadeiro.
Foi num outubro, anos atrás.
Solzão furioso no céu azul. Secura braba. Suando, deixei o prédio do Congresso por volta de meio-dia. Quando me dirigia ao carro, um homem se aproximou de mim. Estatura média, uns quarenta e cinco anos. Entre agressivo e humilhado me parou:
– Me arranja uns trocos, tchê, que eu quero voltar pra Porto Alegre.
O sotaque, inequívoco.
A mulher mais adiante sentada sobre as malas. As crianças brincando no gramado.
Procurei as notas maiores na carteira. E me fui, sem dizer nada, sem me voltar. A garganta seca e áspera. E tive eu incluir mais uma categoria nos retirantes de cuia e bomba.
(*) Crônica publicada em 1988.
Atualização em 2025
Vasculhando meus arquivos, encontrei esta crônica, que aqui vai quase na íntegra. Mexi em duas ou três frases.
Nesses trinta e sete anos, os gaúchos continuaram a deixar o Estado. Acho que as duas categorias que citei ainda são as mesmas, mas com um detalhe importantíssimo: as levas de agricultores se intensificaram, se multiplicaram.
Em Brasília, creio que se pode dizer que, na sua maioria, os pelotenses chegaram aqui como funcionários do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, da Embrapa ou do Exército.
Anos atrás, li uma notícia dando conta de que os gaúchos eram os brasileiros que mais se movimentavam pelo País. Há uns 400 mil vivendo em Santa Catarina e uns 100 mil no Matogrosso. Oeste da Bahia, Tocantins e Sul do Piauí são algumas das nossas novas fronteiras.
Nas viagens que fazia a Pelotas (quando residia em Santa Catarina, entre 1976 e 197) eu sempre encontrava rostos conhecidos nas rodoviárias de Floripa ou Porto Alegre. Contemporâneos meus da Católica ou da Federal (cursei 3 semestres de Direito).
O censo dos jornalistas de Brasília que trabalharam ou estudaram em Pelotas (quase todos formados pela Católica) é feito, há décadas, pelo José Cruz. Dados mais recentes apontam que, entre os que ficaram por aqui e os que só permaneceram por algum tempo, já chegamos a 55.
Sobre o avanço dos agricultores escrevi um artigo – Breve História do Agronegócio (Gaúcho) Brasileiro – que está pendurado aqui no Pelotas 13 Horas.
A expressão pau-de-arara que uso aqui caiu em desuso. Era utilizada para indicar os nordestinos que, em carrocerias de caminhão, desciam em grandes levas para o Sul em meados do século passado. Eu a uso aqui como sinônimo de migrante.
*Lourenço Cazarré é escritor e jornalista.











