CONTOS PELOTENSES: LUGARES

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Contos pelotenses: Lugares

Lourenço Cazarré*

Dias atrás, aqui em Brasília, conversando com o jornalista Carlos Eduardo Beherensdorf, percebi que talvez devesse escrever algo que poderá interessar – ou não – aos possíveis leitores do meu livro Contos pelotenses, publicado há pouco.

Sempre que falo de “possíveis” leitores, gosto de mencionar que, na abertura daquele que é hoje o mais famoso dos seus livros – Memórias póstumas de Brás Cubas –, Machado de Assis cita o número dos seus prováveis leitores: talvez cinco.

Pois bem, agora, depois de um vídeo elogioso de uma professora norte-americana de literatura ter ganhado o mundo, o Memórias, na sua versão para o inglês, está sendo lido por muitíssima gente por toda a vasta Terra.

Em tese, o reconhecimento planetário só chegou um século e meio após o surgimento dessa obra, que, para muitos naquela época, não era exatamente um romance. Era mais um OENI (Objeto Escrito Não Identificado).

Historinha contada, sigamos.

Integro um (bastante numeroso) grupo de jornalistas pelotenses exilados em Brasília que, sempre que se reúnem, se põem a rememorar pessoas, lugares e acontecimentos da velha Princesa do Sul. Na maioria, emigramos nos anos 1970. Mas há alguns que vieram em anos mais recentes. Quatro livros escrevemos sobre essas relembranças.

Beherendorf, Berê – ou Garça, como era conhecido entre os boêmios frequentadores da Cabana, nos anos 1960 – é um grande contador de historinhas. Todas engraçadas. Pois bem, de tempos em tempos, ele me liga para acrescentar detalhes matadores a respeito de alguma crônica sobre tema pelotense que eu tenha praticado.

Chegamos agora ao verdadeiro objetivo deste panfleto – se é que ele tem algum – que é falar dos lugares de Pelotas em que se passam aquelas minhas 16 narrativas curtas.

Antes precisamos abrir mais um cauteloso parêntese.

Uma regra de ouro da literatura diz que os escritores devem evitar menções que apontem para pessoas, lugares e acontecimentos. Por quê? Porque sempre aparecerá um inconveniente para dizer que a coisa não foi bem assim. Se eu citar explicitamente a Vila do Sapo, alguém dirá que a casa amarela que meti no meio do relato era vermelha. Sem falar nos doidinhos que se acreditam retratados num texto, caso o nome do nosso personagem se pareça com o dele.

Por fim, reforçando: quando algo surge no papel não é mais (digamos) verdade. É ficção. É invenção. Não é uma pessoa que está diante dos nossos olhos, é uma personagem. Também não é um fato porque o fato que originou a história vira outro quando descrito, datilografado.

Recentemente, li uma frase que seria de Goethe. Diz o escritor alemão que um ficcionista só sabe daquilo que pretendeu dizer. Jamais saberá o que, de fato, depois, disse na sua escrituração.

Mas, vamos aos contos.

É claro que na minha cachola, enquanto eu as escrevo, as histórias se passam em algum lugar determinado. Rememorado, inventado, adaptado, tanto faz.

Observando os causos que escolhi para integrarem esta minha mais recente coletânea de relatos curtos (a oitava, se não estou enganado), percebo que em dois desses casos o cenário (fictício, repito) é a cidade inteira de Pelotas.

O primeiro deles, cronologicamente, é a Enchente, que escrevi no final dos anos 1970, quando comecei a engatinhar na arte da palavraria. Inventei uma inundação que toma a cidade inteira por vários dias. Talvez eu a tenha escrito a partir de conversas que escutei sobre uma enchente famosa, de 1956, salvo engano.

O outro conto é Enfeitiçados todos nós. Como ele veio até mim? Imaginei um narrador que vai contar uma história usando a primeira pessoa do plural. Nós. Ele falará em nome de todos os moradores da cidade. Assim, quando se refere a seus incontáveis parentes, ele está falando dos nossos parentes. A casa dele é a nossa. A Igrejinha dele é a da Luz, onde rezava a minha (e a tua) avó Edméa.

O Cavaleiro que atravessa a cidade – pela Quinze – num dia de neblina espessa para morrer diante da catedral, imagino eu, mora na Benjamin Constant, num casarão em ruínas. Ele é apenas mais um dos (numerosos) malucos deambulatórios de Pelotas, que aparentemente atravessam seus dias procurando o fim do mundo.

Em No incêndio da tarde reconto (reinventando loucamente) uma história apavorante que me foi contada muitas vezes pelo pai e pela Dadá. A tragédia ocorreu na Zona do Porto. A minha narrativa se passa por lá. E estende-se pelo São Gonçalo.

Meia encarnada dura de sangue se passa na Zona da Luz. Numa rua que, passando ao lado da Igrejinha, descia em direção ao Pepino (antes que fosse aterrado, claro). Ali morei uns bons anos com meus avós. Peguei o meu avô, Leovegildo, o Nena, grande contador de causos, para narrador. Embelezei o cenário com os finais de tarde em que brincava com meus amigos, correndo pelas calçadas, antes da chegada da noite.

Silhuetas contra o alaranjado do nascente, na minha cachola, se passa à beira de um grande açude. Que fica numa zona rural. Talvez no Morro Redondo ou no Monte Bonito, se é que aquelas montanhas podem suportar um açude. Mas aquele conto bem que poderia decorrer no Laranjal.

O inferno traz em si passeia pelo canalete da Argolo, circula o Ginásio Gonzaga, vai até a Voluntários e termina na Barroso, nas proximidades do quartel da Brigada. O conto é protagonizado por um herói, um padeiro português, que inventei calcado no meu avô materno, que não cheguei a conhecer.

Sigamos.

Ilhados se passa em um bairro de pescadores. Alguns apressados dirão que obviamente se trata da Z3. Pode até ser. Mas tive que alterar aquela geografia – que não conheço bem, pois lá estive apenas duas vezes – para obter o cenário ideal para o fecho impactante da história. Pensando bem, aquele morrote que inventei bem pode ser a barranca do Barro Duro. Será?

Animais do banhado, Um só corpo, corcovado e imenso e A coisa mais tremenda que eu já vi nesse banhado desenvolvem-se na minha Vila dos Agachados, que não existe mais. Era um amontoado de casebres (pequenos, baixos) à beira do Pepino, mais ou menos na altura em que desembocava o canalete que vinha do centro, descendo pela Argolo. Eu passava ali todos os sábados de manhã quando, saído da Zona da Luz, seguia para o Bairro Nossa Senhora de Fátima, onde moravam minhas tias.

Para os que apreciam “histórias baseadas em fatos reais” informo que Um só corpo é quase uma reportagem. E mais que isso não digo.

Menino tranquilo nos braços do pai se desenrola na Zona da Balsa, algum tempo depois de a primeira ponte para Rio Grande ter matado a velha e precária embarcação. Muito andei por ali, no fim ou começo da Tiradentes, com meu pai, que gostava de caminhar nos finais de semana, indo até a beira do São Gonçalo. Uma pista: por ali morava um dos meus tios.

A arte excêntrica dos goleiros transcorre, creio eu, lá no final daquela larga avenida que atravessa de ponta a ponta o Fragata. Alguém poderá até dizer que por lá não há nem sombra de um rio. Azar do rio se ele não vai até lá, digo eu. O certo é que eu precisava colocar a beirada de um rio nas proximidades do campo em que é travado o combate futebolístico de veteranos, visto pelos olhos de um um alemãozinho, um coloninho recém-chegado a Pelotas.

O homem que amava os clássicos russos também se passa na Zona do Porto, também na Benjamin Constant. Aliás, talvez a história transcorra no mesmo casarão em que morava O cavaleiro. Durante anos, de segunda a sexta, cruzei aquela rua de bicicleta (depois explicarei o motivo). Eu me identifico plenamente com aquele boêmio piromaníaco porque, como ele, também sou louco por Gógol, Tchecov e Tolstói (que, aliás, na condição de espíritos, me ajudaram a escrever um romance, intitulado Kzar Alexander, o louco de Pelotas).

É música o dia inteiro transcorre naquela mesma rua que descia para o Pepino. Agora me ocorre um nome para ela: Rafael Pinto Bandeira. Os passarinhos do conto são os mesmos ao redor dos quais o meu avô passava os dias inteiros, cuidando, cuidando).

O último conto do livro desenrola-se quase todo dentro da nossa Biblioteca Pública. Quando nos mudamos de Bagé para Pelotas, após a morte da mãe, o pai inscreveu-me na Seção Infanto-juvenil. Com nove anos, desembestei a ler. A bibliotecária era dona Celina. Pouco depois, devorado o estoque, fui promovido à Biblioteca dos grandes.

Bem, pensei em escrever aqui que conhecia uma parte de Pelotas tão bem quanto conheço a palma de minha mão. Só pensei. Seria, além de uma muleta estilística, de um chavão, uma inverdade, porque, pelo que me lembro, nunca olhei para a palma da minha mão.

Mas é fato que por uns bons dois ou três anos, todo dia útil (ou será inútil?), cruzei Pelotas em todas as direções. Sempre de bicicleta. Aos 14 anos, comecei a trabalhar como contínuo do extinto Banco da Lavoura de Minas Gerais, cuja agência ficava na rua Quinze, ao lado da Confeitaria Nogueira.

Missão do contínuo: entregar correspondência. E lá me ia eu com um maço de envelopes que continham faturas, extratos de contas e outros (sempre assustadores) avisos.

Para nós, os garotos que distribuíam as cartas do Banco da Lavoura, a Atenas Sul-rio-grandense dividia-se em três zonas. O miolo da cidade, cursado a pé, era chamado de O Centro. Cortada ao meio pela avenida Bento Gonçalves, a Princesa tinha duas Zonas ciclísticas: Porto e Três Vendas.

Por anos e anos, sempre me coube o Porto. Todos os dias, no começo da tarde, eu descia a Benjamin, indo da rua Quinze até o (já agonizante) Porto, onde ficava a Alfândega. Eu conhecia de cor e salteado as residências da Várzea onde residiam os cachorros mais ferozes, aqueles cujo sonho era abocanhar os meus magérrimos calcanhares.

Dessas incontáveis pedaladas por uma cidade úmida e fria (nos invernos) ou úmida e escaldante (nos verões), de vez em quando tomada por uma chuvinha rala e seguidamente cegada por uma neblina cerrada, nasceu a geografia dos “meus” contos que, repito, não será obrigatoriamente a mesma dos meus improváveis cinco ledores.