
Um ministro “Galinha Gorda”
Henrique Pires*
Quando Artur de Souza Costa concluiu seu curso no Ginásio Gonzaga, no cinto do uniforme escolar do maior colégio católico de Pelotas havia as iniciais GG. Os alunos rivais, do Colégio Municipal Pelotense, o grande colégio leigo da cidade, por conta disso, cunharam o apelido que pegou: o cinto designava os “galinhas gordas”.
Mas, como sempre lembra o apreciado Hélio Freitag, “o ferro vai e o ferro vem”. Os estudantes do Ginásio Pelotense tinham que usar na fivela do cinto as iniciais GP e imediatamente passaram a ser chamados de “gatos pelados”.
As alcunhas cruzaram os tempos.
Naquela época de pouco estudo e muito analfabetismo, concluir o curso ginasial era muita coisa. Artur, de posse do seu certificado, conseguiu em seguida um bom emprego. Foi ser funcionário no importante Banco da Província.
Lá mesmo, aprendeu detalhes de contabilidade bancária e finanças e no trabalho do dia a dia acumulou conhecimentos que muito em breve o credenciaram a assumir a gerência da agência em Cachoeira do Sul.
Não demorou muito, Souza Costa, por sua competência, passou para uma cadeira de diretor do banco em Porto Alegre, tendo que ir seguidamente a capital da República de então, o Rio de Janeiro, para tratar dos assuntos da instituição onde trabalhava.
Naqueles tempos, havia recentemente quebrado a bolsa de valores de Nova York. Aconteceu em seguida a Revolução de 1930, Getúlio Vargas assumiu a presidência do país e nomeou Oswaldo Aranha seu ministro da Fazenda. Não se sabe de onde Artur e Oswaldo se conheciam, ambos amigos e gaúchos da mesma idade. Há quem cogite que compartilhavam a amizade de Rubens Antunes Maciel, cuja casa pelotense na rua Benjamin Constant – o palacete onde hoje funciona o Colégio Felix da Cunha – Oswaldo Aranha seguidamente frequentava, como se pode comprovar em alguns registros que estão na qualificada fotobiografia de Aranha, de autoria de seu neto, Pedro Corrêa do Lago. Talvez seja de lá.
Assim, Artur de Souza Costa quando ia ao Rio, sempre passava no Ministério da Fazenda para tratar de seus assuntos profissionais e abraçar seu amigo, o ministro Oswaldo Aranha, levando invariavelmente um presente, um pacotinho bem amarrado com barbante, com uma iguaria tipicamente de Pelotas: passas de pêssego, que Aranha adorava.
Para quem não sabe, essas passas, que são feitas com pêssegos desidratados e mergulhados no açúcar e depois colocadas a secar a quente, provavelmente foram as pioneiras em fazer a fama nacional dos doces de Pelotas, pois, em exemplo do charque – que é carne desidratada e seca com sal – não dependem de equipamentos frigoríficos para sua conservação, sendo fáceis de transportar para qualquer lugar do mundo.
Num daqueles dias, conta a lenda, estava Souza Costa na sala de espera com as apreciadas passas, aguardando para dar um abraço no seu amigo e ministro quando este o chama em sua sala e sem maiores rodeios, sabendo de sua inteligência e experiência acumuladas em mais de vinte anos como servidor bancário e agora diretor, o convida ali mesmo para assumir imediatamente a presidência do Banco do Brasil. Souza Costa era o cara certo, no lugar certo e na hora certa. Benditas passas!
Pois o ex-aluno do Gonzaga aceitou o desafio e de 1931 a 1934 foi o Diretor Presidente do mais importante banco brasileiro de então.
Desincumbiu-se tão bem de suas funções que Getúlio Vargas, em 1934, o convocou para ser o Ministro da Fazenda, quando Oswaldo Aranha mudou para Washington para assumir a Embaixada Brasileira nos Estados Unidos.
De 1934 a 1945, o ex-aluno do Ginásio Gonzaga pontificou no cenário econômico nacional, sendo nosso Ministro da Fazenda num contexto árido, complicado, com uma guerra mundial acontecendo. Souza Costa, para meu gosto, deveria ser mais lembrado. Ele, depois, foi deputado federal constituinte e ocupou outras funções bastante relevantes.
Estamos em período de Fenadoce, época inclusive de passas de pêssego novinhas e acho que é tempo de lembrar daquele ilustre aluno do nosso querido Colégio Gonzaga, cuja assinatura talvez ainda possa ser encontrada em algum velho documento nos arquivos do colégio, aquela mesma assinatura que ainda se vê em antigas notas de dinheiro onde consta seu nome e seu cargo no Ministério da Fazenda.











