
Sem casaca para o adeus a Washington: os bastidores da viagem de Hipólito da Costa aos EUA
O Capão do Leão nos funerais de George Washington!
Dos EUA – Paulo Gastal Neto*
Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça ou apenas Hipólito José da Costa era um jovem de 25 anos, nascido na Colônia de Sacramento, no Uruguai, passara por Capão do Leão, ao lado de Pelotas e tinha sua formação pela Universidade de Coimbra. Muito antes de se tornar o Patrono da Imprensa Brasileira e de fundar o Correio Braziliense, ele viveu aqui nos Estados Unidos uma saga que misturou missão científica, aperto financeiro e até mesmo algumas frustrações sociais. Tudo isso está registrado em suas memórias, documentadas no maravilhoso livro “Diário da Minha Viagem Para Filadélfia” (1798 – 1799), uma dica que recebi do amigo Henrique Pires, já lido e relido inúmeras vezes tal a preciosidade da obra, que é disponibilizada pela editora do Senado Federal. E aqui, em solo norte-americano, relembrei uma passagem incrível e que acabou gerando esse pequeno artigo às vésperas dos 250 Anos da Independência dos Estados Unidos.
Mas vamos ao tema: Filadélfia, dezembro de 1799. O inverno rigoroso da Pensilvânia parecia ainda mais cinzento com as notícias que ecoavam de Mount Vernon: George Washington, o herói da independência americana e primeiro presidente dos Estados Unidos, estava morto. Nas ruas da então capital provisória da jovem república, o clima era de luto oficial. Sinos dobravam, bandeiras tremulavam a meio-mastro e o corpo diplomático internacional se desdobrava para organizar as homenagens fúnebres.
Hipólito não estava na América do Norte a passeio. Ele havia sido enviado pela Coroa Portuguesa, sob as ordens de Rodrigo de Sousa Coutinho, Ministro da Marinha e Domínios Ultramarinos. A missão era crucial para a economia do império: mapear as técnicas agrícolas americanas e, principalmente, coletar sementes e mudas de plantas, como o tabaco e o cânhamo, que pudessem ser contrabandeadas e testadas no solo do Brasil.
Com os olhos atentos de um cientista e a astúcia de um diplomata, Hipólito viajou por diversos estados entre 1798 e 1800. Ele anotava tudo em cadernos que mais tarde formariam o livro citado na abertura deste artigo: Diário de Minha Viagem a Filadélfia (imagem logo abaixo).
O jovem registrava desde o preço das terras até a mentalidade democrática dos americanos, que tanto o fascinava. Porém, a burocracia portuguesa era lenta, os recursos prometidos atrasavam e o jovem intelectual frequentemente se via sem dinheiro.

Quando George Washington faleceu, em 14 de dezembro de 1799, o Congresso americano organizou uma grande cerimônia fúnebre na Igreja Luterana de Filadélfia, onde o general Henry Lee proferiria a famosa frase que imortalizou Washington como o “primeiro na guerra, primeiro na paz e primeiro no coração de seus compatriotas”.
Como representante intelectual ligado à embaixada de Portugal, Hipólito teve a oportunidade de comparecer ao evento que reuniria toda a alta sociedade política da época. O presidente em exercício, John Adams, e ministros de todo o mundo estariam presentes. Era o evento do ano.
Foi aí que o destino e o rigor da etiqueta da época pregaram uma peça no futuro jornalista. Para ingressar nas cerimônias oficiais de luto, o protocolo exigia uma vestimenta específica e rigorosa: a casaca preta formal. Hipólito, vivendo com o orçamento apertado e longe dos alfaiates de Lisboa, simplesmente não possuía a peça de roupa adequada para a ocasião. Em seu diário, com uma honestidade quase bem-humorada, ele registrou o incômodo de ser barrado pela própria indumentária, observando que a falta de uma casaca preta o impediu de prestar as honras ao maior ícone das Américas. A curiosidade que chama a nossa atenção e nos parece incrível é que por pouco um ex-morador do Capão do Leão, do sul do RS, ao lado de Pelotas, não esteve nos funerais daquele que seria o maior nome dos Estados Unidos e até hoje estampa, com sua efígie, a nota de um dólar.
Aquela situação de não poder se despedir de George Washington por falta de um casaco foi um choque de realidade para o jovem que, anos mais tarde, não se curvaria diante de censura alguma. Ironicamente, o homem que não pôde entrar na igreja da Filadélfia por não estar “vestido adequadamente” seria o mesmo que, em 1808, exilado em Londres, vestiria a coragem para fundar o Correio Braziliense. Através das páginas de seu jornal, Hipólito José da Costa introduziu no debate público brasileiro as ideias de liberdade, comércio e modernidade que ele mesmo havia observado durante seus anos nos Estados Unidos da América.
A anedota da casaca, perdida nas páginas de seu diário de viagem, humaniza o mito. Mostra que por trás dos heróis da pátria e dos bustos de bronze da história, sempre existem os homens de carne e osso que enfrentam a falta de dinheiro, protocolos absurdos e até mesmo o frio do inverno, sem perder o olhar clínico sobre o mundo que ajudariam a mudar.
O Mundo da Copa relembrou hoje uma estória de um ‘brasileiro’ que também teve os seus perrengues aqui na América do Norte, quem sabe assim como tantos outros compatriotas que buscam hoje, dignamente, um novo caminho, passando frio e em busca de uma situação financeira melhor.
Ao Hipólito José da Costa nunca faltou a obstinação. “O homem que foi impedido de assistir às homenagens a Washington por falta de um casaco seria o mesmo a fundar o primeiro jornal brasileiro.”
*Paulo Gastal Neto é radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br
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