ARTIGO – VERÍSSIMO

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VERÍSSIMO

Marcelo de Oliveira Passos*

Minhas primeiras leituras foram poemas e crônicas. Era criança, tinha 6 anos ou 7 anos. Lia os poemas da enciclopédia “Thesouro da Juventude” (português arcaico), que meu pai pediu para minha avó ceder para mim, pois ele lia ainda quando jovem e solteiro.

Depois, já com uns 8 ou 9, passei a ler as crônicas da série de livros “Para Gostar de Ler”, que a professora de Português, D. Regina, da minha escola pública, recomendou. Aí tomei gosto pelas crônicas de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e do melhor de todos: Rubem Braga.

Já com cerca de 13 ou 14 anos, li com voracidade aquele que talvez tenha sido o primeiro grande best-seller de Luís Fernando Veríssimo: “O Analista de Bagé”.

Moro hoje no Rio Grande do Sul. Mas minhas primeiras referências deste estado foram o time de Inter de 1979 (que era o time dele) e este livro. Um dos livros de humor mais expansivos deste introvertido e genial escritor e cartunista que nos deixou.

Depois li “A Mesa Voadora”, “As Mentiras que os Homens Contam”, “Amor Veríssimo” e “Gula – O Clube dos Anjos”, da fantástica coleção “Plenos Pecados”, onde cada livro era sobre um pecado, visto pelos olhares argutos de grandes escritores, entre eles, Zuenir Ventura e João Ubaldo Ribeiro (outro grande cronista).

Veríssimo fazia jus ao nome: sua literatura era plena do que ele verdadeiramente era. Portadora de um estilo claro, conciso (era um homem de poucas palavras), observador, crítico e de humor requintado e, ao mesmo tempo, popular. Literatura feita para sorrisos e raras gargalhadas.

Um homem da segunda metade do século passado. Um gênio que, inevitavelmente para quem viveu naquele século, sentia certa nostalgia de um tempo em que intelectuais eram mais livres. Não se preocupavam tanto com o patrulhamento ideológico. Eram mais unidos, menos individualistas, mais gentis, mais envolvidos com política e causas humanitárias.

Veríssimo era um raro humorista e pensador crítico. Da estirpe de intelectuais como Millôr Fernandes e Woody Allen. Obviamente, nestes tempos onde ignorantes dividem a arte e o humor como “de esquerda” ou “de direita”, Veríssimo fará enorme falta à formação do pensamento crítico voltado para as massas.

Vai com Deus, mestre. Que teu pai te receba de braços abertos.

*Marcelo de Oliveira Passos – Professor e pesquisador do Mestrado e Doutorado em Economia Aplicada da UFPEL.