ARTIGO – UNIVERSIDADE SEM RODEIOS

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Universidade sem rodeios

Pedro E. Almeida da Silva*

A autonomia e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão são fundamentos da universidade. São esses pilares que impulsionam a busca do conhecimento e a sua circulação entre salas de aula, laboratórios e sociedade. Esse arranjo resulta em inovação, pensamento crítico e soluções para necessidades da sociedade, ao mesmo tempo em que qualifica profissionais para o SUS, a educação básica, a indústria, a construção civil, a academia, o serviço público, entre muitos outros setores da vida de uma nação. Cidadãos são preparados para enfrentar problemas complexos e entregar respostas baseadas em evidências. Da mesma forma, nas atividades relacionadas à agropecuária, as universidades formam agrônomos, médicos-veterinários, zootecnistas, engenheiros de alimentos, biólogos, técnicos e gestores, entre outros, que sustentam cadeias do plantio à criação de animais. Em parceria com cooperativas, a Embrapa, prefeituras e empresas, desenvolvem cultivares mais resilientes, bioinsumos, manejo integrado de pragas e agricultura de precisão. Enquanto na produção de proteína animal, destaca-se a participação da universidade nos avanços em bem-estar e saúde animal (vacinas, diagnósticos, rastreabilidade) e em boas práticas higiênico-sanitárias, ampliando mercados consumidores, bem como a segurança alimentar.

Enquanto o agronegócio empresarial é decisivo nas commodities (soja, milho, carnes, celulose), a agricultura familiar responde pela maior parte dos alimentos frescos que chegam diariamente à mesa. Não se trata de antagonismo, e sim de modelos distintos, que coexistem e se complementam. A universidade contribui com ambos: forma profissionais, qualifica processos e avalia impactos em saúde, ambiente e economia.

Diante disso, causa perplexidade a polêmica, quase infantil, em torno da aula inaugural de uma universidade pública na qual se discutiu academicamente um tema global. Enxergar nesse contexto tentativa de doutrinação ideológica é desconhecer a essência da universidade e da práxis acadêmica. As reações — por vezes inquisitoriais, oportunistas e/ou tolas — partiram inicialmente de entidades do setor agropecuário e de outros segmentos conservadores, com histórico de pressionar docentes quando o debate alcança o uso da terra e os impactos ambientais. Em seguida, somou-se a essas manifestações virulentas o oportunismo político daqueles que, em vez de atacar a universidade, chegando à sandice de propor uma lei de censura ao fazer universitário. Estes parlamentares deveriam dedicar seus esforços para explicar a distribuição de recursos públicos via emendas, que são marcadas pela falta de transparência e critérios, também poderiam explicar como dizem defender a democracia ao mesmo tempo em que se alinham aos golpistas de 8/1/2023, o dia da infâmia, e mais recentemente apoiando com o execrável projeto de anistia.

De fato, estas manifestações contra a universidade, especialmente a pública, não passa de ruído que não impedirá que a universidade siga a tradição de ensinar, pesquisar e dialogar livremente com a sociedade, mesmo com os setores que a atacam. Defender a vida e avaliar modelos de produção faz parte da razão de existir da universidade; não é desvio de percurso, é a trajetória em si. É isso que a sociedade financia e tem direito de receber: formação e informação qualificada, ciência séria e debate público à altura dos desafios nacionais. As aulas, magnas ou não, continuarão a ser ministradas com liberdade de cátedra, de forma transparente e sem espaço para rodeios, muito menos currais.

*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG