ARTIGO – UCRÂNIA – SADI MACEDO SAPPER – Podcast

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Sadi Macedo Sapper é jornalista.

UCRÂNIA – SADI MACEDO SAPPER – POR CLAYTON ROCHA – Podcast

UCRÂNIA

Sadi Macedo Sapper*

O notável escritor russo Anton Tchekov, em um de seus magistrais textos, proclama uma sentença terrível: se o homem vai por este lado, será devorado pelos lobos ; se for pelo outro, terá de devorar os lobos ; se escolher o caminho do meio, terá de devorar a si mesmo.

É claro que esquerda, direita e centro são metáforas e que o lobo pode ser tanto o bandido quanto a vítima. Esta sacada genial de Tchekov aplica-se como uma luva ao que está acontecendo agora com a crise política e militar na Ucrânia. Quem é o herói? Quem é o vilão? Quem tem razão?, se é que numa guerra entre forças tão
desproporcionais alguém pode ter alguma razão…

Tem -se dito que a Ucrânia é a mãe da Rússia. E talvez seja mesmo. Há exatos 1034 anos, um príncipe ucraniano dissidente, no ano de 988, fundou a Rússia de Kiev, prenúncio do primeiro estado eslavo organizado e base do surgimento, séculos depois, do Grande Império Russo.

Esse príncipe rebelde dissidente chamava -se Wladimir Primeiro. Wladimir? Isso mesmo! Por coincidência, tocaio de um outro Wladimir, de sobrenome Putin, que na madrugada de 23 para 24 de fevereiro decidiu invadir a Ucrânia, por razões de sobrevivência geopolítica e para impedir que a terra de Kiev venha a fazer parte da Otan, aliança militar do Ocidente. E, por coincidência, antes do sobrenome Zelensky, pelo qual é conhecido o presidente da Ucrânia, se esconde seu primeiro nome, quase despercebido: no idioma ucraniano, muito parecido com o russo, é outro Wladimir! Puxa, tantos ‘Wladimires ‘ juntos e ao mesmo tempo tão antagônicos… Será mesmo coincidência? Dá até para desconfiar!

Neste cair da tarde de domingo, 27 de fevereiro de 2022, quando a generosidade do Clayton me convida a fazer este texto para o 13 Horas, escrevo sem saber se Kiev já foi ou não tomada e ainda sem saber muitas outras coisas. Sigo tentando descobrir quem é o mocinho e quem é o bandido, mas já sei que tanto em Moscou quanto em Kiev há serpentes e cordeiros.

Ucrânia, pensando bem, é um nome forte, quase bonito. Poderia ser o nome de uma deusa eslava, de olhos claros, envolta em um diáfano manto azul e amarelo. Ucrânia poderia ser também uma marca de cerveja. “Quero uma Ucrânia bem gelada e dois copos”. O que acham? Ucrânia pode ser tantas coisas e, ao mesmo tempo, ser nenhuma.

Não sei bem por que, lembrei agora do poeta Carlos Drumond de Andrade e da saudade que sentia de Itabira, sua terra natal em Minas Gerais. Que ideia essa minha agora de lembrar de um poeta e de alguma poesia em meio a uma guerra…!! Mas eu sei bem porque lembrei. Drumond escreveu: “Hoje, Itabira é só um retrato na parede. Mas como dói”. Para mim, para nós, a Ucrânia é só um pontinho distante no mapa. Mas como incomoda, como dá medo, como preocupa!

*Jornalista