ARTIGO – TSERÊ – Podcast

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TSERÊ

Ivon Carrico*

O Programa “Caça de Asteróides”, desenvolvido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em parceria com a NASA, envia imagens dos telescópios mais potentes do mundo para equipes inscritas, que podem procurar e nomear os corpos celestes.

Em uma dessas equipes está um brasileirinho de 9 anos que estabeleceu o espaço sideral como a fronteira para os seus sonhos. E,… conhecimentos. É o Tserê, um indígena da etnia Xavante que, hoje, reside em Goiânia.

Inimaginável uma cena dessas até poucos anos porque havia e, ainda há, muita gente neste País – em pleno Século XXI – que entende que o índio tenha de viver isolado sem qualquer contato com o mundo exterior. Como em um ‘santuário’.

A questão indígena e a proteção do seu legado não é de hoje. Primeiramente a Igreja se estabeleceu em muitas dessas comunidades e, depois, com a expansão das linhas telegráficas para o Sertão, ao final do Século XIX, é que – talvez – tenhamos tido os primeiros contatos para o estabelecimento de políticas públicas quando – então – logo, após, surgiu o SPI/Serviço de Proteção ao Índio.

De lá pra cá tivemos avanços e retrocessos porque se insiste nessa questão, quase ideológica, entre integrar ou
manter isolados nossos índios. Na própria FUNAI há esse dilema onde Antropólogos não se entendiam(em).

Por sua vez, o STF torna mais confusa e conturbada a questão. Como nesse polêmico ‘Marco Temporal’ acerca da demarcação de terras indígenas.

Por força do exercício profissional na Administração Federal trabalhei 4 longos anos na Amazônia, no início da década de 1980, e pude verificar ‘in loco’ essa realidade. Também integrei, após, o corpo funcional da FUNAI.

Isto posto, entendo que não pode essa questão se circunscrever tão somente ao aspecto fundiário. Não estou aqui negando o direito à posse e/ou à demarcação das terras indígenas, eis que importante. Mas, mais relevante é o Estado brasileiro, sem aviltar os valores e a cultura indígena, estabelecer e consolidar políticas públicas para a efetiva integração desse povo.

Caso contrário, nosso Tserê não poderá continuar a sonhar tão alto, onde para ele o céu é o limite.

*Ivon Carrico é pelotense, mora em Brasília, atuando na administração há quase 50 anos. Atuou na ANVISA e na Presidência da República. (Brasília, 30/08/2021).

DE BRASÍLIA – IVON CARRICO COMENTA SOBRE O “MARCO TEMPORAL” A SER DECIDIDO PELO STF – Podcast