ARTIGO – O SOCO NACIONAL DE HEBERT

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ARTIGO – O SOCO NACIONAL DE HEBERT

Paulo Gastal Neto*

A ‘bomba’ de Hebert Conceição no ucraniano Oleksandr Khyzhniak, no boxe chamado de nocaute, representa a participação de todos os brasileiros nessa Olimpíada, penso nesta madrugada de sábado. É a vontade de todos nós: dar uma bomba daquelas no ‘status quo’ atual, encorporado naqueles que estão nos representando, ou pensam em nos representar, em se falando de política nacional, extensivo ao judiciário de última instância, decadente e descrente.

Era noite escura quando vibrei com aquele momento, com aquela porrada. Como eu queria que fosse dirigida a outrem. Nos dois primeiros ‘rounds’, ou assaltos como se dizia antigamente, Hebert levava uma surra de Khyzhniak e só o nocaute, ou seja, levar o ucraniano à lona o salvaria. E assim foi: um direto cruzado derrubou o adversário que não sabia o que era derrota a mais de 60 lutas. Era isso que precisávamos na política, pensei.

Khyzhniak caiu tonto e nele projetei políticos deste momento e que estão em altos escalões. Visualizei naquela cena os togados que se distanciam cada vez mais dos anseios populares. A queda do ucraniano bem que poderia ser a queda de um imbecil negacionista, anti-vacina que propaga asneiras dia após dia e denigre a história do nosso país. Bem que aquele soco, pensei eu, poderia ter outro endereço que não o do pobre do ucraniano. Mas Hebert transformara-se ali numa representação isolada nesta olimpíada, ele era agora um sentimento construído com o seu soco. Todos nós queríamos dar um soco daqueles. Era o soco nacional.

Já pela manhã, o inverso: quando Richarlison foi cobrar um pênalti contra a Espanha, também valendo medalha de ouro para o Brasil, o ex-jogador do América Mineiro e do Fluminense lembrou uma freira carmelita, um coelhinho branco ou ursinho, brinquedo de criança, contrastando com Hebert. Era a representação de um plasta, assim como o país diante de tamanho desmando intelectual, pelo menos. Um ser inofensivo, sem vontade, borrado, que isolou a bola quase para fora do estádio, sem nenhum compromisso, assim como tem sido a passividade nacional. Richarlison foi salvo por Malcom, um garoto sem saber quase onde estava, mas compromissado e que deu a medalha ao Brasil. Os dois estão muito longe do soco hebertiniano.

O Brasil necessita de muitos ‘Heberts’. Somente um soco como aquele, nesse momento, serviria para a redenção de todos. O que esperamos de alguém na vida política desse país é de uma atitude como a do boxeador brasileiro. Um sentimento de raiva, derrota, ojeriza, perda, desencanto, transformado num soco salvador! Em um nocaute nesse miserável momento nacional, refém de incautos dirigentes sem o menor escrúpulo ou sentimento de benevolência com o seu povo. Triste momento salvo por um soco no meio da madrugada.

*Radialista e editor do site www.pelotas13horas.com.br