
O FIM DO PEDÁRIO É O COMEÇO DO ABANDONO?
Paulo Gastal Neto*
Há na Zona Sul do RS uma certa euforia generalizada e cínica com o fim da concessão da Ecovias Sul que acontece hoje. Na verdade o que estamos assistindo é um ato de irresponsabilidade coletiva por parte dos homens públicos do RS – sobretudo os daqui da região – independente dos seus partidos políticos. Essa insanidade encontra resguardo maior no governo federal.
Hoje muitos estão comemorando o encerramento da cobrança de pedágios como se estivéssemos diante de uma grande vitória popular. Mas, em meio aos aplausos, uma pergunta essencial não está sendo feita com a seriedade que merece: o que acontecerá com as rodovias a partir de hoje até uma nova concessão?
As rodovias federais que cortam o sul do RS desempenham papel estratégico para o desenvolvimento regional. São eixos logísticos que conectam produção agroindustrial, transporte portuário e mobilidade intermunicipal. A previsibilidade operacional desses trechos não é apenas uma questão de conforto ao usuário, mas de eficiência econômica e segurança pública, isso mesmo: segurança pública!
Os trechos da BR-116 entre Camaquã e Pelotas e da BR-392 entre Pelotas e Rio Grande não são apenas faixas de asfalto. São corredores logísticos fundamentais, rotas de escoamento da produção, caminhos diários de trabalhadores, estudantes e pacientes e merecem manutenção e atenção séria por parte das autoridades. Não estamos diante de um evento burlesco. Por essas vias transitam vidas! São vidas que dependem de atendimento rápido e estrutura adequada em momentos de emergência. Mas o que vale agora para os mandatários é a eleição de outubro. Sim: os nossos deputados estão mais preocupados com sua própria reeleição do que com a vida das pessoas que nas rodovias trafegam.
Até ontem tínhamos atendimento médico de urgência, socorro mecânico, guinchos, inspeção de tráfego e a ANTT efetivava a pesagem de caminhões para evitar a sobrecarga nas vias. Isso cessou. Haviam também equipamentos preparados para agir em acidentes graves. Não temos mais. Com o fim do contrato, nesta quarta-feira, quem assumirá essa responsabilidade será o DNIT sem as minímas condições de atendimento de emergência, juntamente com as pobres prefeituras e suas combalidas ambulâncias.
O que causa indignação não é apenas a incerteza, mas o silêncio. Deputados federais e estaduais da região sul parecem ter se concentrado exclusivamente na pauta da tarifa, embarcando no discurso fácil da “libertação do pedágio”, sem enfrentar o debate mais complexo e responsável: a continuidade dos serviços essenciais. A população foi induzida a acreditar que o fim da cobrança significará automaticamente um cenário melhor. No entanto, rodovias sem manutenção adequada e sem atendimento emergencial estruturado custam muito mais caro — em vidas, em prejuízos econômicos e em sofrimento humano.
Mais uma vez, a região sul do Estado demonstra uma preocupante falta de união estratégica e de consciência coletiva. Pensou-se apenas no valor pago na cancela, e não no da segurança. Optou-se pelo alívio imediato no bolso, ignorando as consequências de médio e longo prazo.
Não se trata de defender pedágio por si só. Trata-se de defender planejamento, responsabilidade e compromisso com a vida. Não tivemos uma transição clara, sem garantias públicas e sem um plano concreto para assegurar que os serviços não simplesmente desapareçam da noite para o dia por responsabilidade dos mandatários atuais
A região sul do Estado precisa superar a lógica de debates fragmentados e avançar para uma postura institucional mais coordenada. A defesa do interesse regional passa por articulação política, acompanhamento técnico e cobrança transparente de soluções estruturadas. O encerramento de uma concessão não pode significar o início de um período de improviso. Por isso cada vez mais elegemos candidatos de fora, pois eles são muito mais responsáveis! Já tomei minha decisão.
*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br











