ARTIGO – MEDICAMENTOS: ENTRE O AVANÇO DA CIÊNCIA E A MERCANTILIZAÇÃO DA SAÚDE

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Medicamentos: entre o avanço da ciência e a mercantilização da saúde

Pedro E. Almeida da Silva*

Poucas conquistas da ciência impactaram tanto a vida humana quanto os medicamentos. Graças a eles, doenças outrora fatais hoje são tratáveis; a expectativa de vida aumentou de forma inédita; e milhões de pessoas encontram alívio em condições que antes eram sentença de sofrimento e morte.

Entretanto, esse triunfo convive com um dilema. O uso dos medicamentos, para ser eficaz e seguro, exige conhecimento técnico, orientação adequada e adesão consciente. E é justamente aí que residem as fragilidades. A educação em saúde da população em geral permanece limitada, marcada por mitos, automedicação, expectativas irreais e confiança exagerada na “pílula mágica”.

Os prescritores, cuja formação acadêmica negligencia frequentemente a discussão aprofundada sobre o uso racional de medicamentos, não estão imunes a pressões. A relação próxima entre a indústria farmacêutica e a classe médica, sustentada por forte investimento publicitário, distribuição de presentes e amostras grátis, influencia de forma inequívoca a prescrição. Como disse o economista Milton Friedman: “Não há almoço grátis”. Ainda mais grave é que hospitais universitários, espaços de ensino e formação crítica, frequentemente abrem suas portas ao marketing da indústria farmacêutica, normalizando esse contato e perpetuando um modelo que fragiliza a autonomia profissional e a prescrição apropriada. Estratégias de marketing, embora legítimas do ponto de vista comercial, podem obscurecer a avaliação crítica das reais necessidades do paciente. É um terreno delicado, onde interesses científicos, econômicos e sociais se entrelaçam.

Há ainda outro aspecto que não pode ser ignorado: o número de farmácias no Brasil. A Organização Mundial da Saúde recomenda cerca de uma farmácia para cada 8 a 10 mil habitantes, mas no país a realidade é quase o dobro desse parâmetro, chegando em algumas cidades a uma farmácia para cada 3 mil habitantes. Essa superoferta estimula o consumo e reforça a lógica de medicamento como mercadoria, enfraquecendo a percepção de que seu uso requer orientação profissional qualificada. O cenário agrava-se com a pressão de grandes redes de supermercados para vender medicamentos em gôndolas comuns, fora do ambiente farmacêutico, enquanto as farmácias, por sua vez, ampliam cada vez mais a oferta de produtos típicos de supermercado, como refrigerantes, chicletes e sorvetes. Essa inversão de papéis reduz o espaço da saúde e fortalece a lógica do consumo. Diante desse cenário, o uso racional de medicamentos torna-se um imperativo. Significa garantir que cada paciente receba o medicamento apropriado à sua condição, na dose correta, por tempo adequado e ao menor custo possível para si e para a sociedade.

Celebrar os benefícios inquestionáveis dos medicamentos não deve nos cegar para o risco de seu mau uso. O século XXI trouxe novos dilemas, como a resistência antimicrobiana, a medicalização da saúde e os custos crescentes de terapias inovadoras. Enfrentar tais desafios requer o fortalecimento da assistência farmacêutica, garantindo que o medicamento seja compreendido como parte de uma política pública integrada, que priorize o paciente e não o consumo.

*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG