ARTIGO – GENEBRA, CEMITÉRIO PLAINSPALAIS

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 Jorge Luis Borges em Buenos Aires, Nov. 20, 1981. Imagem: AP Photo/Eduardo Di Baia.

GENEBRA, CEMITÉRIO PLAINSPALAIS.

14 de junho de 1986
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Por Clayton Rocha
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” – Vejo a morte como libertação!”
Jorge Luis Borges
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Eu transmiti os funerais de Jorge Luis Borges naquele 14 de junho de 1986, Cemitério Plainspalais, Genebra, Suiça. Na condição de leitor voraz de suas obras, e de profundo admirador do escritor argentino, tal tarefa, ao microfone da rádio Gaúcha de Porto Alegre, e por determinação de Ruy Carlos Ostermann, passou a fazer parte da minha história de vida.
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Quando Jorge Luis Borges desceu à sepultura, junto ao pé de um cipreste, inúmeros títulos de suas obras desfilaram em alta velocidade pela minha memória.

Quando Jorge Luis Borges desceu à sepultura, junto ao pé de um cipreste, inúmeros títulos de suas obras desfilaram em alta velocidade pela minha memória. Fixei-me, no entanto, numa só passagem deste símbolo da literatura argentina e mundial. E pensei, no ato, em trecho necessário, numa página viva que era resultado de sua alta criatividade: uma página de um livro que falava no significado do livro! Ali, naquela despedida, nenhuma outra citação teria condições de substituí-la. Borges e os livros tinham sintonia fina e permanente. Borges se doara por inteiro aos livros, e os livros esperavam pelo intelectual diferenciado que se expressava e se consagrava em muitos idiomas.

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– “Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.
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Em César e Cleópatra, de Shaw, quando se fala da Biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. Isso é o livro. E é algo mais também: a imaginação! Que é o nosso passado, se não uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Essa é a função exercida pelo livro.
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Borges vai, sua memória fica. Os seus livros encarregam-se agora de perpetuá-lo na memória da humanidade, celebrado mundialmente que é. Há silêncio em Plainspalais. Uma leve brisa acaricia os galhos dos ciprestes de Genebra. Jorge Luis Borges, o argentino nascido em Buenos Aires, faz agora o seu “Voo Livre”, o mesmo voo que é feito todos os dias pelo talento admirável desse extraordinário Deogar Soares. Borges, a partir de hoje, está livre dos desconfortos da vida física, pois encontra – finalmente – esse desejado sinal de alívio, ou seja, a libertação propiciada pela morte.
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Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo
Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899.
Genebra, Suiça, 14 de junho de 1986