ARTIGO – DIVISÃO À ESQUERDA E O CUSTO DA INSISTÊNCIA

225
Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, Juliana Brizola e o presidente Lula em recente encontro. Foto: Jornal O Globo

Divisão à esquerda e o custo da insistência

Paulo Gastal Neto*

O Rio Grande do Sul volta a oferecer, neste período pré-eleitoral, um velho ingrediente da política brasileira: quando a convergência parece possível, prevalece a divisão. Parece ser essa uma particularidade do nosso estado. Um eterno grenalismo.

A dificuldade de entendimento entre PT e PDT, em torno de uma candidatura comum ao governo do Estado – de Juliana Brizola que lidera as pesquisas -, deixou de ser apenas uma disputa interna no Partido dos Trabalhadores, para se tornar um problema estratégico. E dos grandes.

De um lado, o PDT, hoje em posição competitiva e de outro, o PT que insiste em manter a pré-candidatura de Edegar Pretto, trilhando um caminho próprio, mesmo diante de um cenário que recomenda composição. Nada de anormal, partidos disputam espaço, mas o ponto fora da curva está na desconexão entre o movimento regional e a orientação nacional.

A direção nacional do PT, alinhada ao projeto de reeleição do presidente Lula, vê nas alianças estaduais uma peça-chave para sustentar uma estratégia mais ampla diante de um cenário de quase igualdade entre a sua candidatura (reeleição do presidente Lula) e a candidatura da direita. A ameaça de intervenção no diretório gaúcho não surge por acaso: é o reflexo de um impasse que deixou de ser local.

O problema é que, enquanto se discute protagonismo, o tempo político avança, e a fragmentação da esquerda no estado começa a produzir efeitos previsíveis: ruído, desgaste e a possibilidade concreta de isolamento, inclusive com a eventual saída do PSOL de uma composição mais ampla. Quando aliados naturais começam a se afastar, ou ameaçam rupturas de forma contundente, algo está fora de lugar. Vide o caso  da pré-candidatura do deputado estadual Ernani Polo no Progressistas recentemente.

Há, nesse processo entre PT e PDT, um risco evidente de leitura equivocada do momento. Insistir em candidatura própria pode ser um gesto de afirmação partidária, mas não é o caso, pois o Partido dos Trabalhadores no RS, não necessita dessa afirmação, pois é uma agremiação consolidada. O que está acontecendo é justamente um movimento de curto alcance, incapaz de enxergar o tabuleiro completo. A política exige, antes de tudo, senso de oportunidade e muitas vezes saber recuar é parte da estratégia. Estamos assistindo uma briga feroz e desconstrução mútua entre bons amigos e possíveis aliados.

Ao manter uma posição rígida diante de um cenário adverso, o PT corre o risco de transformar uma escolha legítima em um erro político. Não por falta de direito, mas por excesso de cálculo equivocado. No fim, o eleitor observa menos os argumentos e mais os sinais. E o sinal que hoje se desenha no Rio Grande do Sul é o de um campo político que, podendo somar, opta por dividir. Em eleições competitivas, esse costuma ser um luxo caro demais.

*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br