ARTIGO – AS ARTES EM TEMPOS DE COVID-19

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AS ARTES EM TEMPOS DE COVID-19

Antonio Cesar G. Borges*

No domingo ensolarado, Dia do Médico, a praça era ocupada apenas pelos pássaros, por alguns moradores de rua e pelo Simões Lopes de bronze com sua máscara de pano cobrindo a boca e o nariz. Passear por ali era um convite irrecusável para alegrar os ânimos em meio à sombria realidade da epidemia que insiste permanecer por aqui. Porém, à tarde, as calçadas e os canteiros estavam cheios de visitantes. Ao caminhar 200 metros, contei 28 pessoas “sem máscaras” e até mesmo a estátua do famoso escritor fora despojada de sua proteção contra o vírus. Frente ao risco de contaminação, voltei rapidamente para casa, levando comigo a triste conclusão de que em alguns ainda estão presentes o negacionismo da ciência e o desrespeito para com a saúde do outro.

Então, busquei refúgio nos jornais, nos livros e nos aplicativos do celular. Acessei o “link” https://acervosvirtuais.ufpel.edu.br/malg/  e ingressei na primeira exposição virtual do Museu Leopoldo Gotuzzo (MALG) com acervos que contam muitas histórias. Esse louvável trabalho da equipe do Professor Lauer Alves Nunes dos Santos mostrou como a moderna tecnologia pode levar as artes às diferentes classes sociais. Assim, entre as obras de Locatelli, Gotuzzo, esculturas do Caringi, a coleção oriental de Vinholes e de outros artistas, estava o prédio da rua Marechal Floriano esquina Barão de Santa Tecla. Aquela imagem despertou em mim vivas lembranças da infância, as reformas no casarão e as comemorações dos 70 anos da EBA – Escola de Belas Artes.

Como se isso não fosse suficiente, ao colocar em dia a leitura de exemplares do Diário Popular, a manchete “Filme da UFPel vence em Gramado” chamou minha atenção (DP 25 de setembro de 2020). O vencedor foi o documentário que mostra a saga de uma mulher e seus três filhos na luta para a construção de uma casa na Vila Getúlio Vargas após serem despejados. O autor do filme foi Leonardo da Rosa, aluno do curso de Cinema da nossa Universidade Federal que conquistou quatro prêmios na competição: Melhor Filme, Melhor Direção, Menção Honrosa e Melhor Montagem.

A notícia não apenas foi motivo de orgulho para a UFPel e para aqueles que deram origem aos novos cursos, como também me reportou ao passado, quando uma professora de baixa estatura, muito alegre, sempre agitada e elegantemente vestida entrou em meu gabinete na reitoria dizendo: “Cesar, eu sei que tu aprecias as artes. Então, vim aqui porque a universidade tem que criar um curso de Teatro e, talvez depois, um curso de Cinema”. Ela se chamava Carmen Lúcia Abadie Biasoli.  Era graduada em pedagogia e especialista em história da arte. Na mesma época, eu havia recebido a proposição de instalação de um curso de cinema, trazida por André Macedo, cartunista do Diário Popular e criador do famoso e lendário Libório, conhecido personagem pelotense das pequenas histórias em quadrinhos. Era a oportunidade de uma nova profissão para jovens dedicados ao desenho e ao design.

 Com a aprovação pelos conselhos superiores da Universidade, atendi a sugestão de Henrique Pires, Diretor de Arte e Cultura da UFPel, e divulgamos os cursos, em primeira mão, no Festival de Cinema de Gramado, na presença do então Ministro da Cultura Gilberto Gil. Em seguida, a divulgação do terceiro curso de cinema do país ofertado pela UFPel foi prestigiada no Anima Mundi, maior festival de cinema de animação do Brasil. Poucos meses depois, o vestibular permitiu o ingresso dos primeiros alunos naquele curso superior. Nenhum de nós imaginaria, entretanto, que, dez anos mais tarde, eles estariam honrando nossa Universidade com o maior prêmio no mais importante festival de cinema brasileiro.

Agora, em 2020, a reportagem no Diário Popular sobre o curta metragem “Construção” e a exposição virtual do MALG me levaram a folhear novamente o livro “A Escola de Belas Artes de Pelotas: memória e história”, organizado pelas professoras Anaizi Espírito Santos, Carmen Regina Bauer Diniz e Clarice Rego Magalhães. O excelente livro, rico em informações e ilustrações, revelou não apenas a EBA como identidade cultural de Pelotas, mas, sobretudo, o papel desempenhado por aquela Escola no ensino das artes plásticas. Sua importância está reforçada no artigo 4º, parágrafo 1º, do decreto-lei nº 750, de 08 de agosto de 1969, que registra a Escola de Belas Artes “Dona Carmen Trápaga Simões”, o Conservatório de Música de Pelotas e a Faculdade de Medicina da IPESSE como instituições particulares agregadas à Universidade criada naquela data. Logo depois, ocorreria a federalização dessas entidades.

Enfim, naquela tarde de domingo, a leitura agradável e instrutiva ocupou o ócio forçado pela epidemia. Restou a esperança de que, nos dias seguintes, a população aderisse às mascaras para que a cidade voltasse à categoria bandeira amarela até a chegada das vacinas contra o coronavirus.

*Médico, ex Reitor da UFPel