ARTIGO – AINDA NÃO VI TUDO

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AINDA NÃO VI TUDO

Paulo Gastal Neto*

Quem nunca ouviu a expressão: ainda não vi tudo. Ela nos remonta inúmeros períodos da vida em diversas situações. No Brasil ela se encaixa muito bem na política. As constantes trocas de partidos por parte dos políticos, a propagação de novas agremiações (já são 30 registrados do TSE), as surpreendentes nomeações de ministros, secretários e dirigentes de estatais ou autarquias feitas entre adversários ferrenhos que se abraçam; antigos inimigos em poses amistosas exibindo sorrisos falsos; cargos na pauta em troca de favores entre opostos, enfim uma gama de ainda não vi tudo” nos batem à porta diariamente. E tudo, verdade seja dita, nos três níveis de administração: municipal, estadual e federal.

Mas o “ainda não vi tudo” de hoje vai para o espetáculo caricato, bestial e talvez ofensivo a legislação eleitoral, assistido por milhões de brasileiros no carnaval deste ano: o samba enredo da Escola Acadêmicos de Niterói. Esse “ainda não vi tudo” supera – até o momento – qualquer outra passagem da política brasileira recente. Até então não tínhamos visto tamanha bajulação, manifestação de servilismo e imensa reunião de lacaios sambando ao som de um enredo que contou a trajetória do presidente brasileiro, possível candidato a reeleição em pleito que acontece, coincidentemente, este ano.

Segundo a sinopse do enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, cerca de 3.000 integrantes abordaram a infância pobre do presidente chegando até a terceira eleição presidencial, com destaque para o período em que Lula foi líder sindical. O número 13, o do partido nos processos eleitorais, aparece no samba-enredo encomendado, dizendo que a viagem de Lula, sua mãe e os irmãos para São Paulo levou “13 noites e 13 dias”.

Quem assiste sem paixões a crise moral do STF, a financeira envolvendo o Banco Master e nomes proeminentes da Nação, o roubo aos velhinhos do INSS e agora o samba enredo da escola de Niterói, percebe facilmente que o Brasil assume publicamente que está vivendo um “vazio de referências”. E isso não é um fato novo, porém tem ganhado contornos dramáticos nos últimos anos, onde a estética individual do ser e a política se fundem em espetáculos patéticos que cruzam a linha do aceitável. As redes sociais escancaram isso de forma muito didática: políticos, parlamentares, detentores de cargos públicos, tornaram-se ‘palhaços’ da sociedade, perderam a sobriedade, a liturgia, a racionalidade em troca de uma animação patética que chega a ser constrangedora. Uma espécie de “vergonha alheia” colaborando sobremaneira para o nosso “ainda não vi tudo” diário.

O nosso país parece atravessar um período de anomia social, onde as regras e normas se desintegram, quase provocando uma falta de referência na ordem social. Quando as instituições — sejam elas políticas, jurídicas e até mesmo as culturais — deixam de ser vistas como bússolas, o resultado é quase um estado de perplexidade coletiva.

O desfile da Acadêmicos de Niterói serve como um adicional a essa crise. O Carnaval sempre foi o espaço da transgressão, mas há uma diferença entre a sátira política saudável e o escárnio que fere a sensibilidade da população. Podemos ir além: a agressão se faz também aos meios que apoiam o presidente Lula: Os petistas aliados conscientes percebem que o radicalismo estético afasta a esquerda dos seus propósitos. O sentimento de “ataque à boa vontade do povo” surge quando o cidadão percebe que os recursos públicos estão sendo usados para ridicularizar suas crenças, inclusive a sua religião, ao invés de de elevar sua condição de vida. A verdadeira decadência não está apenas no ato em si, mas na indiferença dos políticos diante do constrangimento de quem realmente sustenta o país.

Um país que perde a capacidade de se indignar com a falta de ética, mas se exaure em brigas de narrativas, corre o risco de transformar a política em uma eterna “escola de samba” onde o enredo é a própria desconstrução da identidade nacional, tipo “ainda não vi tudo”!arios 2026.

Em tempo: a Acadêmicos de Niterói tirou último lugar no Carnaval Carioca 2026.

*Radialista e editor do www.pelotas13horas.com.br