ARTIGO – A UNIDADE ENTRE ESTADISTAS 

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Willy Brandt et François Mitterrand em 1990 durante encontro em Paris. (Photo by Daniel SIMON/Gamma-Rapho via Getty Images)

A UNIDADE ENTRE ESTADISTAS 

Por Clayton Rocha – 1997

Mário Soares: Um dos o traços mais marcantes da carreira deste estadista português devolve-me aos salões da Embaixada brasileira em Lisboa, local onde o   Embaixador Jorge Bornhausen o recepcionou, em novembro de 1997,  para que ele assumisse, solenemente, a presidência do Projeto Luso Grande do Sul/ Brasil:500 anos. E que traço era esse que, naquela ocasião,  diferenciava Mário Soares dos demais?  Pois era o do diálogo intenso,  sempre em busca do entendimento, quer seja na esfera nacional, ou em sua luta pela plena integração de Portugal com a Comunidade Européia. Ninguém melhor do que ele, portanto, em função de sua conhecida ligação afetiva com o lado de cá do Atlântico, para incorporar o espírito desses 500 anos do Descobrimento em nome das nossas duas nações. O ex-Presidente e três vezes ex-Primeiro-Ministro  costuma ser lembrado, tanto lá quanto aqui, como o mais brasileiro dos portugueses que têm lugar de honra no cenário mundial. E verdade seja dita, ninguém fala tanto em Brasil na Europa e no mundo  quanto Mário seguidor da escola de Willy Brandt e de François Mitterrand, dois estadistas que pregavam a unidade entre as nações.

Pois em relação ao Brasil, já se percebe que essa grande costura internacional capaz de integrar povos, credos e raças em nome de arrojados projetos culturais voltados para as comemorações dos 500 anos passa a depender da ousadia do Vice-Presidente Marco Maciel, apoia-se nas ações do agora Embaixador Lauro Barbosa da Silva Moreira, Presidente da Comissão Nacional para o V Centenário, e ganha dimensão internacional através da espontânea adesão do ex-Presidente de Portugal.  Dito isso, o que se pretende buscar através deste artigo, na medida em que o mesmo destaca o espírito de unidade de três estadistas que já estiveram a serviço da causa portuguesa, é a essência do sentimento humano e político de alguns homens que pregaram em suas vidas o entendimento e a unidade. Seus ricos exemplos de vida, expressados, entre outros aspectos, por uma profunda  humildade pessoal, talvez nos sirvam de referência quanto ao que se pretende, para bem além do ano 2000, quando os brasileiros iniciarão, em saudável parceria com outros povos,  a construção da história de outros 500 anos. Para tanto, e em homenagem às origens de Willy Brandt, François Mitterrand e Mário Soares, os três ex-governantes que dão conteúdo a esta página, espera-se que Alemanha, França e Portugal, do alto de sua posição de históricos parceiros, e cujos descendentes irão erguer conosco o alicerce desse novo tempo, tenham as suas bandeiras entrelaçadas à nossa, em nome do mais elevado espírito de unidade entre a Europa e a América.

E que, na hora em que a Alemanha chegar, disposta a brindar conosco pelos 500 anos, o exemplo da fraterna relação de amizade entre Willy Brandt e Mário Soares possa simbolizar essa parceria que propiciou o entendimento, a unidade e as relações de trabalho entre povos de língua germânica e potuguesa em boa parte deste século. Os dois governantes que deram sequência aos vínculos estabelecidos lá no começo dos tempos têm um histórico respeitável  a ser considerado. E, quanto a esse aspecto, bastaria referir que foi o saudoso  Chanceler Willy Brandt quem ajudou Mário Soares a inserir Portugal na Comunidade Econômica Européia. Um Willy Brandt  que era sinceramente seu amigo, e que foi  um homem que se voltou, durante o seu governo, para a causa portuguesa. De tal maneira, e com tamanha intensidade,  que as  próprias expressões do ex-Presidente de Portugal quando se refere a esse extraordinário líder alemão que morreu em outubro de 1992, dizem tudo sobre essa harmoniosa convivência: – “Willy Brandt, que nasceu pobre, filho de uma empregada doméstica, e sem que tenha conhecido o pai, era uma individualidade ímpar, dotado de excepcional inteligência, de grande generosidade, com uma vida fabulosa de resistente, um ser humano invulgar, um espírito sempre em busca de unidade,  o que o impunha ao respeito de todos.”

Toda vez que lembra Brandt, o ex-Presidente sempre  acrescenta Mitterrand à conversa. Os dois o ajudaram muito, lhe distinguiram sempre, defenderam as causas portuguesas, estreitaram laços com os países de língua portuguesa, e foram forças decisivas que viabilizaram a inclusão de Portugal na Comunidade Econômica Européia. Pois quando  recepcionarmos a França, e todos aqueles franceses que fizeram do Brasil a sua pátria, haveremos também de pensar em François Mitterrand.

O ex-Presidente da França, que foi durante toda a sua vida  uma chama acêsa em defesa da unidade entre os povos, um  modelo de coerência,  que pensou não apenas a França ou a Europa, mas que soube pensar o mundo em sua visão integradora, bem que poderia repassar, aos líderes desta hora, através da história que protagonizou, essa energia contagiante que ainda  o mantém vivo na cena política internacional. A propósito dessa busca de imagens fortes, que se diga mais de François Mitterrand, e que  se dê a Mário Soares, cuja conferência em Pelotas versará sobre “O futuro das relações entre o Mercosul e a Comunidade Européia”, tema esse que fortalece o ideal do saudoso líder socialista francês, o direito de expressão: – “O Presidente da França não teve paz enquanto não uniu a Europa. E em seu sonho maior constava a América. Mas a América haveria de ser buscada, primeiramente, a partir de Portugal. Mitterrand ensaiava tudo, em seus longos isolamentos, e em suas profundas meditações. Mitterrand ensaiou a sua morte como a sua vida! Até ao fim foi, realmente, uma personagem de romance, como dele disse François Mauriac. Intrigou, dividiu e, às vezes, irritou os franceses, os quais, na sua grande maioria, demoraram a render-se-lhe, mas que, finalmente, acabaram por lhe prestar uma derradeira e comovida homenagem, quase unânime e impressionante. Nem De Gaulle despertou um tão amplo sentimento unanimista. Tive a honra rara de ser contado entre os seus amigos. A sua amizade, nunca desmentida, foi-me preciosa, em diferentes circunstâncias: no exílio, na Internacional Socialista, como Primeiro-Ministro e, depois, como Presidente de Portugal. Mitterrand conhecia bem Portugal, e a sua ação foi decisiva para possibilitar a nossa adesão à Comunidade Econômica Européia e em vários outros momentos da vida dos dois países. Viveu, com grande sentido de solidariedade, as vicissitudes da nossa Revolução. Ainda, um mês antes de sua morte, me perguntou por várias figuras da nossa Revolução e o que lhes havia sucedido.”

Socialista como Mitterrand, ex-Presidente como Mitterrand, e seguidor dos princípios que se voltam para a integração econômica de blocos que possuam vínculos históricos, Mário Soares trará consigo, em sua visita a Pelotas, o espírito pacífico e empreendedor  do líder francês que tanto o inspirou. Ele,  que foi um dos últimos políticos estrangeiros a ser recebido por Mitterrand, em novembro de 95, no gabinete oficial de ex-Presidente, perto dos Invalides, lembra que até ao fim Mitterrand foi igual a si mesmo, heroico na silenciosa aceitação da doença, partilhado entre a ação política e a literatura, as duas paixões da sua vida, com a curiosidade intacta e desperta, como escreveu Odile Jacob no prefácio do seu livro póstumo  De l’Allemagne, de la France.