TREZE NO MUNDO DA COPA – COMO A GEOPOLÍTICA SE CURVA DIANTE DO ESPORTE

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Jesse Owens desafiando o regime nazista em 1936. Fonte: Getty Images

COMO A GEOPOLÍTICA SE CURVA DIANTE DO ESPORTE

Dos EUA

Paulo Gastal Neto*

Alô amigos do nosso http://www.pelotas13horas.com.br. Hoje iniciamos uma série de artigos escritos diretamente aqui dos Estados Unidos, um dos países que está sediando a Copa do Mundo 2026. Será daqui dos EUA, também, que estaremos fazendo nossas participações no Programa Treze Horas, na Rádio Universidade e nos nossos canais no Youtube https://www.youtube.com/@pelotas13h–  – e Instagram https://www.instagram.com/pelotas_treze_horas/

Ao desembarcar ontem pensei em escrever este primeiro artigo, sobre o caráter integrador do esporte, que nesse momento já tem pelo menos uma exceção. Omar Artan, o árbitro somali que estava prestes a se tornar o primeiro juiz de futebol da Somália a atuar em uma Copa do Mundo e acabou sendo barrado ao chegar aqui nos EUA pelo Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras do país. Imediatamente a FIFA o retirou da lista de árbitros do torneio sem detalhar quais eram essas preocupações. Fica uma mancha no início do meu argumento.

Mas a ideia é de chamar a  atenção de como a política sucumbe ao esporte, na maioria das vezes, e isso é muito legal. Começando pelo prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, que recentemente assinou um “decreto” simbólico e descontraído datado do dia 1º de junho de 2026. A medida oficializou a revogação do horário de dormir das crianças na cidade. A brincadeira teve uma razão puramente esportiva: permitir que os pequenos nova-iorquinos pudessem ficar acordados até mais tarde para assistir e torcer pelo New York Knicks nas Finais da NBA. Como o time de basquete da cidade não chegava à grande final do campeonato desde 1999, o clima em NYC virou uma verdadeira festa. Ao assinar o documento cercado por estudantes, o prefeito declarou de forma bem-humorada: ” – as crianças podem ir dormir após assistirem os jogos”! O decreto foi uma jogada de marketing e engajamento que celebrou o momento histórico do esporte local, unindo a prefeitura e os jovens torcedores.

O mundo contemporâneo vive sob uma constante sensação de corda bamba. Conflitos territoriais históricos, tensões religiosas profundas e rivalidades geopolíticas que parecem insolúveis estão constantemente nas manchetes. No entanto, quando as arenas esportivas se abrem, sejam elas as pistas de atletismo dos Jogos Olímpicos ou os gramados de uma Copa do Mundo, a narrativa global ganha um roteiro alternativo. É o momento em que a bola ou o cronômetro operam milagres que a diplomacia tradicional raramente alcança.

A maior prova histórica do esporte como ferramenta de contestação e união ocorreu em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim. O regime nazista de Adolf Hitler planejou o evento para ser a vitrine definitiva da suposta “supremacia ariana”. O plano parecia infalível aos olhos do Führer, até que um jovem afro-americano chamado Jesse Owens pisou na pista.

Com quatro medalhas de ouro (100m, 200m, revezamento 4x100m e salto em distância), Owens não apenas venceu; ele estraçalhou a ideologia oficial do regime sob o olhar atônito das autoridades nas tribunas. A vitória de Owens estabeleceu o esporte como o território onde o talento e a dignidade humana se sobrepõem a qualquer tirania.

Da Pista de Berlim aos Gramados da Copa do Mundo

Essa mesma força simbólica se renova a cada ciclo esportivo. Na atualidade, o grande palco dessa trégua e afirmação global se transfere para a Copa do Mundo nos EUA, Canadá e México. A presença de seleções como o Irã e o Iraque em um torneio sediado em solo norte-americano carrega um peso que ultrapassa as quatro linhas que demarcam um gramado de futebol.

Para países que enfrentam décadas de sanções, embargos e um isolamento diplomático severo por parte das potências ocidentais, a simples entrada em campo nos Estados Unidos é uma vitória de representatividade. O esporte força o aperto de mãos que a política externa nega, provando que os povos e seus atletas não se reduzem às decisões de seus governantes.

Ao mesmo tempo, o futebol opera outra mágica: a inclusão dos pequenos gigantes. A ascensão de nações sem qualquer tradição histórica em Copas, como Curaçao, Cabo Verde ou o Haiti, serve como um espelho moderno do espírito de superação.

A celebração e a ascensão de Cabo Verde no cenário internacional. Fonte: Carlos Rodrigues / Getty Images

Para essas pequenas nações, frequentemente castigadas por crises econômicas ou desastres climáticos, competir em igualdade de condições contra as superpotências multimilionárias do futebol europeu ou sul-americano equivale às medalhas de Owens em 1936. É a afirmação de que existimos, competimos e podemos vencer.

O Placar da Igualdade

Quando comparamos as participações dessas nações, o verdadeiro significado do esporte de alto rendimento fica evidente:

Evento / ContextoProtagonistaImpacto GeopolíticoO Significado Real
Olimpíadas de Berlim (1936)Jesse Owens (EUA)Desmistificou a propaganda de supremacia racial do nazismo.A dignidade humana acima da tirania.
Copa do Mundo nos EUAIrã e IraqueSuperação do isolamento e das barreiras diplomáticas em solo rival.O esporte como ponte sobre a rivalidade política.
Copas ModernasCuraçao, Cabo Verde, Haiti, etc.Países pequenos e sem recursos enfrentando gigantes do futebol.A democratização do reconhecimento global.

Em tempos onde o mapa-mundi parece fragmentado por muros e trincheiras, esses momentos provam que a única linguagem universal capaz de unificar o planeta ainda é a busca pela superação. Seja na corrida de Owens ou na estreia de uma pequena ilha em uma Copa do Mundo, o esporte continua sendo o nosso maior manifesto de paz.

E é nessa linha, ao contrário de muitas coberturas, que queremos mostrar aos nossos leitores e ouvintes, um outro lado do mundo do futebol e onde ele acontece em seu momento máximos neste ano de 2026. Uma boa Copa para todos e em paz. Nos acompanhe no Treze aqui direto dos EUA.

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