DESSEMELHANÇA

2106

DESSEMELHANÇA

Renato Varoto*

Equivocado, por certo, assemelhar o golpe de 1964 com a realidade dos dias atuais, vez serem tão vastas as diferenças existentes que qualquer cidadão de mediana inteligência é capaz de aponta-las, uma vez despido de dominação ideológica, vivenciando o bom senso que deve nortear o agir humano.

Lá, nós tínhamos os militares no poder, hoje estão nas respectivas guarnições cumprindo suas missões constitucionais; lá, tínhamos um nível de miséria muito superior aos indicadores hoje existentes; lá tínhamos uma imprensa censurada, hoje vivemos uma imprensa livre, ainda que parte submissa; lá, tivemos o apoio popular, hoje, mostram as pesquisas, o repúdio a defesa da impunidade; lá, passou-se uma borracha tentando apagar os crimes, as torturas e o arbítrio, hoje buscasse punir os culpados sejam eles civis ou militares; lá, as universidades pertenciam a poucos, hoje elas estão ao alcance de muitos; lá tínhamos as panelas vazias, hoje boa parte delas contém alimentos, ainda que a fome continue presente para muitos; lá, os artistas não podiam expandir suas criações, hoje eles podem criar segundo suas capacidades.

Em síntese, por mais superficial, salvos os que agem com má-fé, devemos nos preocupar em compreender porque vencido o período da ditadura, transformamos o Brasil num país dual, marcado pelo ódio, havendo uma exíguo espaço para aqueles que buscam o poder para proteger o povo, assegurando uma sociedade livre e soberana.

Desse modo, inaceitável que venhamos a nos submeter a atos negacionistas, ao vandalismo ou, o pior, ao comando de estados estrangeiros. Assim, devemos pôr em evidência os movimentos que perseguem o verdadeiro Estado Democrático de Direito, rejeitando quaisquer lideranças ou ações que nos levem ao atraso que representaria o retorno a um regime de força, onde o cidadão só tem deveres, transformando os direitos, quando reconhecidos, em meras benesses governamentais.

*Jornalista, advogado e professor e integrante da Equipe Treze Horas.