ARTIGO – AS CAPITAIS BRASILEIRAS, SUAS RAZÕES E DESCONEXÕES

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Paço Imperial, no Rio de Janeiro, foi um dos principais edifícios utilizados pela Família Real portuguesa e pelos Imperadores do Brasil. Foto: A.PAES / Shutterstock.com

As capitais brasileiras, suas razões e desconexões                 

Pedro E. Almeida da Silva*

O Brasil já teve três capitais federais. Quatro, se contarmos Curitiba, que em 1969 foi promovida(?) , por três dias, à categoria de “capital simbólica da nação”. Uma condecoração que mais parecia um selo de “carimbo militar aprovado”, em gratidão à lealdade da cidade ao golpe de 1964. Nada mal para uma democracia em preto e branco.

Salvador, a primeira capital, foi fundada em 1549 para atender aos interesses da Coroa Portuguesa: proteger a extração de pau-brasil e escoar açúcar com eficiência. Localização estratégica, economia girando, escravidão operando a todo vapor. Tudo nos conformes do colonialismo extrativista que se enraizou como um modo de ser nacional.

Já em 1763, a capital migrou para o Rio de Janeiro, centro logístico da mineração e nova a preferida da Coroa. Afinal, ouro e diamantes não se governam sozinhos. O Rio foi palco de eventos-chave: chegada da família real (1808), independência (1822) e a abolição “formal” da escravidão (1888), porque, de fato, a informal, ainda não foi revogada.

Também foi lá que Deodoro da Fonseca, um Marechal monarquista rancoroso, primo intelectual de muitos Augustos e Almires de hoje, proclamou a República em 1889, mais por birra pessoal com Gaspar Silveira Martins, do que por fé republicana. Dali em diante, golpes se tornaram rotina institucionalizada: do Estado Novo às torturas de 1964, passando por ovos de serpente que chocam até hoje, como o flerte com a ditadura de oito de janeiro de 2023.

Em 1960, a capital foi transferida para Brasília, supostamente para “interiorizar o desenvolvimento” e “unificar a nação”. Na prática, construiu-se a fortaleza perfeita: distante o suficiente do Brasil real, protegida por concreto armado e cercada por um silêncio acolchoado de carpete legislativo. Brasília não tem esquinas, embora tenha muitas emendas parlamentares, algumas até secreta. Não tem sombra nem calçadas, mas tem muitos lobistas e golpistas.

Sobre o urbanismo da capital federal, o arquiteto Jan Gehl não perdoa: a cidade foi feita para carros, não para gente. O urbanismo de Brasília afasta, isola, silencia. Até conservadores como Gustavo Corção Braga reconhecem que Brasília sufoca a sociedade civil e esteriliza a participação popular. Mas talvez essa seja exatamente a ideia.

Salvador foi a capital do açúcar. O Rio, da pompa imperial e da retórica republicana. Brasília, por sua vez, é a capital da abstração, um laboratório de engenharia política onde se testa a elasticidade da ética e a invisibilidade do povo.

Enquanto o Brasil pulsa nas vielas, ônibus e corredores de posto de saúde, a capital respira ar-condicionado institucional e chantageia  seus bilhões, emendas por emendas, com os olhos fechados para quem paga a conta.

E o povo? Observa de longe. Muito longe. Especialmente de onde não chega asfalto, nem verba empenhada pelas emendas.

*Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande – FURG