
Pesquisadores da Università Bocconi previram quem seria o novo Papa
Prof. Dr. Marcelo de Oliveira Passos – Professor de Economia e pesquisador em redes complexas.
O Conclave tradicionalmente é um dos processos eleitorais mais sigilosos do mundo. Ele foi aberto no dia 7 de maio para escolher o 267º pontífice da Igreja Católica. A atenção de centenas de milhões de católicos voltou-se para a chaminé do Vaticano, com a expectativa de que a fumaça branca surgisse a qualquer momento. Um ritual que guarda todo o mistério e que revela a inspiração que o Espírito Santo trouxe aos cardeais reunidos em um evento secular que também é uma reunião social e política.
A palavra política é utilizada aqui na acepção etimológica do termo, que remonta ao grego antigo – “politiká” (πολιτικά) – significando “assuntos da pólis. E “pólis” ou πόλις, refere-se à cidade-estado grega, a unidade básica de organização social, política e econômica da Grécia Antiga. Portanto, os cardeais reuniram-se para, política e espiritualmente, decidir sobre um assunto crucial quem seria o substituto do reformador e carismático Papa Francisco?
Por trás das portas fechadas do Conclave, estava em curso uma dinâmica eleitoral que, tem termos econômicos, se assemelha a um parecido com a escolha de um de CEO por um conselho de administração. Todavia, não se tratava de um assunto profano. Ao contrário, nesse jogo haviam códigos e rituais seculares confiados a um seleto conjunto de cardeais eleitores. Mas as perguntas que surgiam, no mundo todo, são bem semelhantes às questões levantadas quando se escolhe um CEO.
Existe consenso em torno de um candidato? Quem influencia a escolha final? É possível saber alguma pista sobre como prever quais os nomes com maiores chances de ocupar o Trono de São Pedro?
Um grupo de estudiosos da Universidade Bocconi — Giuseppe Soda, Alessandro Iorio e Leonardo Rizzo — assumiu a tarefa de responder estas perguntas, a partir de análise de dados e utilizando todo o rigor acadêmico. Utilizaram métodos avançados de Ciência de Redes Complexas (Complex Network Science).
O trio aplicou tais métodos ao universo mais enclausurado e sigiloso que se tem notícia: o Colégio Cardinalício. A ideia que os movia não era fazer uma previsão com boa dose de probabilidade, mas decifrar os dados relacionais que os levassem a uma compreensão menos incerta de quais cardeais teriam maior probabilidade de ser eleito como papa.
A explicação de Giuseppe Soda, professor da Universidade Bocconi, é elucidativa: “Nosso ponto de partida é simples, mesmo na Igreja, como em qualquer organização humana, os relacionamentos importam. Quanto mais conectado, ouvido e central for um indivíduo no fluxo de informações, maior a chance de se tornar uma figura de unificação.”
Com isto, os três pesquisadores modelaram uma “rede do Vaticano”, a partir de três fontes principais de dados:
- Cointerações institucionais oficiais (dicastérios da Cúria Romana, comissões, conselhos, academias): essa base de dados mostra com quem trabalhou ou trabalha cada cardeal e em quais situações ocorreram ou ocorrem esta interação de trabalho.
- Linhas de consagração episcopal: obviamente cada cardeal foi ordenado por outros. Assim, o trio de pesquisadores formou “árvores genealógicas de ordenação”. Tais árvores, são laços importantes de relacionamento.
- Relações informais: eles pesquisaram jornais confiáveis, traçando vínculos de mentorias, afinidades ideológicas e participações em conjunto em atividades eclesiásticas e pastorais relevantes (cursos, encontros, reuniões, palestras etc.).
Com tais dados, eles construíram a rede entrelaçando vínculo a vínculo, cada cardeal com todos os outros com quem tivesse relações destes três tipos mencionados.
Como em qualquer rede complexa deste tipo, existem três métricas que definem a “centralidade”, “prestígio” ou “proeminência” de um cardeal na rede:
- Status, medido pela centralidade do autovetor (eigenvector centrality), identifica os cardeais vinculados não a muitos outros, mas àqueles que sejam mais influentes.
- Controle da informação, estimado pela centralidade de intermediação (betweenness centrality), revela os cardeais que são como pontes (ou hubs) para outros grupos influentes.
- Capacidade de construção de coalizões, calculada por um índice composto que combina:
- Clustering (grau de participação e coesão em uma comunidade de cardeais). Essa métrica mostra o quanto um cardeal faz parte de um grupo unido e baseado em confiança mútua;
- Influência direta (medida pelo número de conexões diretas — quanto maior o grau, maior a influência e popularidade);
- Papel estratégico (a capacidade de agir como ponte social entre membros distintos da rede, conectando grupos diferentes e favorecendo alianças).
Além dessas métricas amplamente utilizadas na ciência de redes, os pesquisadores utilizaram um critério decisivo e crítico: a idade dos cardeais. A modelagem da rede complexa considerou uma correção estatística com a idade média dos papas eleitos desde 1800. A ideia foi incorporar ao modelo a tendência da série histórica que sugere que a preferência das escolhas recai em cardeais não muito jovens, nem muito idosos.
Vamos aos rankings com os resultados dos nomes mais prováveis de serem eleitos, conforme cada dimensão avaliada:
Top 5 em Status
- Robert Prevost (moderado, EUA)
- Lazzaro You Heung-sik (liberal moderado, Coreia do Sul)
- Arthur Roche (liberal, Reino Unido)
- Jean-Marc Aveline (liberal moderado, França)
- Claudio Gugerotti (liberal moderado, Itália)
Top 5 em Controle de Informação
- Anders Arborelius (conservador moderado, Suécia)
- Pietro Parolin (liberal, Itália)
- Víctor Fernández (liberal, Argentina)
- Gérald Lacroix (moderado, Canadá)
- Joseph Tobin (liberal, EUA)
Top 5 em Capacidade de Construção de Coalizões
- Luis Antonio Tagle (liberal moderado, Filipinas)
- Ángel Fernández Artime (liberal moderado, Espanha)
- Gérald Lacroix (moderado, Canadá)
- Fridolin Besungu (conservador moderado, Congo)
- Sérgio da Rocha (liberal moderado, Brasil)
No centro da rede do estudo observa-se uma alta conectividade que reúne cardeais com orientação “liberal moderada”. Há também um considerável grau de igualdade na distribuição geográfica. Com a Europa e a América do Sul ainda muito presentes e os cardeais da Ásia e da África ganhando centralidade (ou prestígio).
Rede dos cardeais com maiores chances de se tornarem papas

Os autores da pesquisa usaram com muita argúcia e rigor científicos as ferramentas analíticas da ciência de redes. Souberam como analisar e onde e como buscar os dados relevantes para elaborar sua rede de cardeais.
A ciência de redes, uma das áreas da ciência de dados, separa os sinais dos ruídos. Revela a verdade que está encoberta por informações, boatos e interpretações equivocadas. Baseia-se em fatos e não em interpretações equivocadas, opiniões ou suposições.
Não foi palpite. Não foi achismo. Foi puramente ciência de redes bem feita.
Referência: SODA, G. ; IORIO, A. e RIZZO, L. citado por ORLANDO, B. (2025). How network science can help us understand who will be the next Pope. The study by Soda, Iorio, and Rizzo reveals how status, information and alliances influence the papal election. Università Bocconi – News and Event Hub. May, 8. https://www.unibocconi.it/en/news/network-conclave











